quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Romance: Além dos Séculos

Capítulo I



                Glenroe Forest, Escócia, l745.

                Abriu os olhos devagar, uma sensação de náusea a fez desequilibrar por alguns instantes. Era noite clara, havia muitas árvores ao seu redor... Um tiro rompeu o silêncio da noite explodindo num clarão de luz. Gabriela sorriu satisfeita não acreditando que realmente estava ali, no mesmo lugar de antes sendo que mais de duzentos anos atrás. O que Pedro, seu irmão estaria pensando?  Correra um grande risco ao desafiar as leis da física com aquela idéia maluca de máquina do tempo. Mas precisava tentar, afinal só assim teria a chance de recuperar o manuscrito e provar a inocência de sua família, livrando-os da morte.
              Galopes e o som de metais cortando galhos para abrir caminho chamaram-lhe a atenção, parecia um grupo grande que se aproximava rapidamente. Gabriela se escondeu atrás de uma árvore grande, mas não fora rápida o suficiente. Em poucos instantes Gabriela se viu rendida por um homem enorme de cabelo e barba ruiva e imensos olhos verdes que a segurava firmemente com uma espada rente a sua garganta.
                -Peguei Ryan! Veja só se não é ninguém menos que lady Dafhne de Le  Monde. Tão fácil, pena que minha espada não sentiu o sabor da batalha...
                Ryan olhou para a garota  estranhou sua vestimenta. Parecia um anjo pálido ali no meio da mata.
                - Cuide dela Frank, amarre-a e coloque também a mordaça para que ela não grite alertando os guardas. Pretendíamos invadir o castelo caso necessário, mas sabíamos do seu gosto por fugas noturnas, pena não termos pensado nisso antes.
                Gabriela olhou para o seu raptor e arregalou os olhos tamanho seu espanto. Estava diante do mesmo homem cujo rosto vira centenas de vezes nos livros históricos.
                 -Ryan Lancarster, eu não imaginava encontrá-lo tão cedo.
                 -Encontrar-me? Perguntou, estreitando os olhos desconfiado. Como assim encontrar-me? Não sabe o que a espera? Frank, siga a garota de perto e rápido, sigamos em frente  antes que os guardas  nos alcancem. Sabe garota, quando vi a flecha em chamas cortar o céu, soube que a sorte estava do nosso lado. Logo teremos novamente o controle sobre o castelo e não precisaremos mais viver escondidos como ratos nas montanhas.
                 -O que a espera? Pensou Gabriela, Lady Dafhne foi sua antepassada e sabia um pouco de sua história, mas não se lembrava de ter lido sobre nenhum seqüestro ou que Lord Ryan fosse um bárbaro no tratamento com as mulheres. Quanto à sorte, esta estava do lado dela que ao ser confundida com lady Dafhne teve diante de si a oportunidade de recuperar o manuscrito e retornar o quanto antes ao seu tempo.
                -Esperem homens! Gritou lord Ryan. Ouçam, parecem cavalos. Rápido, temos de alcançar o vale além daquela montanha, só então estaremos seguros.
                 Gabriela sentia o suor escorrer por suas costas. Como imaginar que há mais de duzentos anos atrás o calor estaria insuportável, enquanto que no seu tempo o frescor dos primeiros dias de inverno... Dias! Era dia quando entrara na máquina e noite quando completou o percurso, não poderia esquecer de contar isso para Pedro, essa passagem extra das horas deveria ter algum significado na ruptura temporal.
                  -Algo estava errado. Pensou Ryan. Já era tempo para que algum guarda houvesse aparecido para resgatar a pequena Lady. Aliás, de pequena não tinha nada. E aquelas roupas então? Estranhas demais para qualquer mulher, com aquele pedaço de pano apertando o corpo com aqueles cadarços a mostrar-lhe as formas, fazendo qualquer homem perder a cabeça. Diabos! Mas o que estava pensando? Tais pensamentos não poderiam ser dele. Logo ele que bastava um olhar para ter a mulher que desejasse. Não seria uma garota vestida de roupas de boneca que iria fazê-lo perder a cabeça. Ainda mais filha de um usurpador. Fora fácil demais, fácil para ela ser realmente quem dizia... Mas... ela não disse.
             -Esperem! Disse Ryan galopando até Gabriela. Quem é você mulher? Diga logo antes que eu lhe arranque as entranhas! Gritou retirando-lhe a mordaça.
              Apesar do medo diante de tal fúria inesperada Gabriela não seria descoberta ainda, não antes de por a mão em seu precioso manuscrito, precisava saber se tais afirmações contidas nele eram verdadeiras ou se realmente aquele que sua família protegera por tentos anos era falso e estaria perdido ou pior, em mãos perigosas. Seus dois primos haviam sido presos por tentar recuperá-lo, por infelicidade dois ladrões roubavam o mesmo museu e mataram o vigia e três policiais que foram acionados para prendê-los. Os ladrões escaparam com o manuscrito e seus primos levaram a culpa tanto pelo roubo, quanto pelo assassinato.
         - Vamos mulher, responda!
         -Quem mais eu poderia ser senão Lady Dafhne de Le Monde?
         - Se é realmente quem diz, mostre a marca de nascença, todos sabemos que somente Lord Mcdonald de Le Monde e sua filha Dafhne a possuem.
         Sem se abater e fingindo uma calma aparente, ainda com os pulsos amarrados, Gabriela abriu os primeiros botões de sua blusa, mostrando-lhe, Próximo ao seio esquerdo, a marca que seus antepassados possuíam. Por um minuto que lhe parecera uma eternidade, todos ficaram olhando espantados para ela, até que Ryan num gesto brusco juntou os botões escondendo a marca.
          - Mas o que pensa que está fazendo sua louca? Então não vê que está diante de homens de verdade e que há muitas noites não tocamos em uma mulher? Por acaso pensa que assim conseguirá escapar em troca de certos favores?
          - Seu grosso, eu apenas atendi ao seu pedido, Não era o que queria ver?
          - Seu demônio em cara de anjo, não pense que irá ludibriar a mim ou aos meus homens, tente e sofrerá as conseqüências! Gritou ainda com Gabriela presa junto ao corpo e sentindo sua pele arder de desejo pela proximidade daquela garota. Num impulso jogou-a para longe de si, se preocupar com o fato dela estar amarrada em cima de um cavalo e esbravejando retomou seu posto a frente de seus homens.
          - Não fique tão assustada, menina. Disse Frank ajudando Gabriela a se ajeitar na montaria. No fundo ele não é tão mau. Aliás, é o homem mais justo que conheço.
           Gabriela percebeu que todos os outros homens, cerca de vinte, olhavam para ela desconfiados;  mas foi um outro bem moreno que mais a assustou. Ele a olhava com cobiça e ao vê-lo passar a língua nos lábios enquanto olhava para ela como se fosse um pedaço de carne, Gabriela sentiu um tremor sacudir-lhe o corpo. Teria muito cuidado com ele.
           - Sinceramente Ryan, não vi motivos para tudo aquilo. O que afinal deu em você homem de deus para tratar a garota daquele jeito?
           - A louca simplesmente ia se despir na frente de todos, caso eu não interviesse. O que fiz foi para o próprio bem e segurança dela. E Deus sabe que eu mataria qualquer um de meus próprios homens se tentassem algo contra ela. Não somos bárbaros, Frank!
Não violentamos mulheres, principalmente uma que nos renderá nossos homens de volta.
           Frank coçou a barba pensando nas palavras de seu comandante e com um meio sorriso nos lábios voltou para perto da garota. È, fazia sentido.

        Após cavalgarem cerca de quatro horas, chegaram à clareira depois da montanha e  Ryan ordenou que desmontassem, pois pernoitariam ali. Já era muito tarde, Gabriela calculou umas três horas da manhã e sentindo todo seu corpo doer e seus pulsos em brasa, foi com alívio que se viu levada até um canto próximo a alguns arbustos.
       -Retirem a mordaça e desamarrem a garota, mais fiquem atentos; a fama de lady Dafhne é grande e não queremos que ela fuja agora que estamos seguros. 
       - Há um pequeno lago atrás desses arbustos my lady, pode se refrescar lá, mas não vá muito longe.
        Gabriela olhou-o agradecida e caminhou lentamente em direção ao lago. Retirou toda a roupa, deixou em cima de uma pedra e mergulhou. Banhou-se e já se preparava para sair da água quando sentiu um dor enorme junto ao tornozelo. Com um grito e sentindo muita dor, deixou-se afundar novamente no lago.
        Ryan não conseguia dormir, trocou de lugar com o homem que vigiava lady Dafhne e ficou a pensar nos acontecimentos das últimas horas. Não devia ter perdido o controle momentos atrás, afinal aquela garota não significava absolutamente nada para ele. Estava pensando em pedir-lhe desculpas quando um grito fraco, quase um gemido chamou-lhe a atenção. Correu até o lago e vendo que a garota afundava parecendo inconsciente, pulou n’água, amaldiçoando-a caso estivesse tentando enganá-lo para tentar fugir. Ao chegar perto da garota Ryan viu o filete de sangue que saía do tornozelo dela e reconhecendo a picada de cobra, retirou-a sem esforço da água.
       -Por Deus, ela está nua! Que o inferno a leve por ter sido tão imprudente ao nadar para tão longe, quando o mais seguro era apenas refrescar-se junto à margem.
       Ryan deitou-a sobre a grama macia e sentiu a pele da garota queimar-lhe as mãos. Febre! Com certeza foi picada por alguma cobra venenosa. Pensou Ryan já cortando o local da picada com um pequeno punhal que sempre carregava consigo e sugando o veneno através do corte. Vendo que a garota começava a ter tremores, Ryan retirou toda roupa molhada e não vendo outra solução, abraço aquele corpo macio e febril a fim de conter a febre. Sabia ser normal aquele tremor devido ao veneno que se instava rápido pelo corpo de quem era picado e ao ser removido, algumas pessoas reagiam assim, principalmente se estivesse fraca com o estômago vazio. Mas que droga! Só mesmo uma louca sairia do castelo àquela hora da noite sem ter se alimentado. Mulheres!  Sim, era  uma mulher que tinha diante de si, bem ali colado ao seu próprio corpo também nu. A febre da garota logo passaria, precisava conter sua própria febre antes que cometesse alguma loucura. Tentou se concentrar e relaxando um pouco o abraço, ficou ali duelando com seus instintos animais.
          Que sonho bom. Pensou Gabriela, se aconchegando ainda mais àquele corpo quente que a protegia. Quem seria ele? Quisera Deus permitir-lhe sonhar todas as noites algo assim tão real.
          Ryan sentindo aquelas carícias femininas em seu corpo, retesou-se por alguns minutos. Mas o que estaria se passando pela cabeça daquela feiticeira de pele macia? Já não bastava o tormento o qual estava passando?
         Se esfregando junto aquele corpo musculoso e sensual, Gabriela ainda sonolenta passou os lábios pelos mamilos do homem que a abraçava com força.
         Ryan ao sentir um toque molhado em seu peito não resistiu, com um gemido abafado e contido capturou a boca daquela feiticeira num beijo selvagem. Se era uma noite de prazer que ela queria, era justamente o que estava determinado a proporcionar-lhe.   Tendo uma mão presa a um dos seios de Gabriela, passou a acariciar-lhe as curvas do corpo, descendo cada vez mais até encontrar seu ponto mais íntimo. Com movimentos circulares passou a aprofundar seus dedos aos poucos naquela carne quente e úmida.   Beijava-a com volúpia e sem parar de acariciá-la começou a murmurar-lhe palavras doces ao ouvido.
          Aquilo estava real demais. Gabriela abriu os olhos e num ato de desespero empurrou com toda força aquele cujos carinhos ainda queimavam-lhe a pele.
          -Saia de cima de mim, seu cretino! Solte-me ou gritarei tão alto que todos estarão aqui num segundo!
          - Mesmo? Minha bela indomada? Por quem me toma, sua feiticeira... Acha mesmo que pode brincar comigo desse jeito e parar assim? Não, você terá o que pediu!
          - Está louco? Eu não pedi coisa alguma!
          - Chega de truques sua diabinha de pele macia, você não me engana. E com um beijo ardente reiniciou os carinhos, fazendo Gabriela gemer de prazer. Sim, ela seria sua, amanhã pensaria nas conseqüências de seus atos. Agora estava mais interessado naquela feiticeira de corpo sedutor.
          Gabriela não sabia o que fazer, pois seu corpo não resistia àqueles beijos ou àquele toque gentil e abrasador. Tentou mover-se para longe, porém Ryan trouxe-a ainda mais para junto de si. Nunca sentira algo assim. Mesmo virgem achava que sabia tudo sobre o sexo e julgava-se uma mulher moderna aos vinte e dois anos, só mantivera-se virgem até então, pois jamais se envolvera com alguém de forma tão profunda. Porém aquela loucura não poderia concretizar-se; Ryan estava na condição de seu inimigo, já que seus antepassados lutavam em lados opostos. Tateando o chão, Gabriela encontrou algo maciço e mesmo sabendo que não deveria, bateu com toda sua força uma pedra na cabeça de Ryan.
              -Sua bruxa! Você planejou tudo muito bem, não foi? Tentaria me iludir para depois fugir, não é mesmo? Pena que tenho a cabeça dura e ainda que o corte tenta sido profundo, irei sobreviver. Quanto a você sua cadela arisca, receberá o que merece... Agora vista-se ou a levarei do jeito que está até o seu canto frio. È, ele será frio, assim como a sua prisão.
              Gabriela vestiu-se rapidamente e com um puxão bruto em um dos braços, foi levada e jogada junto à fogueira.
              - Você! Fique de olho nessa mulher!
              Um homem alto e muito magro concordou com a cabeça e pegando um pedaço de carne na fogueira e um copo de vinho aproximou-se de Gabriela.
              - Tome, é bom que esteja bem alimentada para seguir viagem amanhã. Seguiremos logo ao amanhecer e será uma viagem de dois dias e, com um pouco de sorte, mais uma noite.  O vento não sopra em direção nenhuma, por isso foi possível ascender uma fogueira. Se não fosse assim, teríamos apenas o vinho e um pedaço de pão.
              - Obrigada. É bom saber que alguns de vocês têm bom coração. Acho que se dependesse do chefe de vocês eu ficaria no pão e água.
              - Morda a língua garota ou eu posso acatar a sua sugestão. Disse Ryan entre os dentes, enquanto limpava o sangue que ainda escorria em sua testa. Não pense que serei o único a sentir dor. Em breve o inchaço em seu tornozelo irá piorar e a sua dor talvez seja mais insuportável do que a minha. Só não conte com a minha ajuda, pois você terá de se virar sozinha.
                - Eu prefiro morrer a pedir sua ajuda!
              - Veremos. E com um meio sorriso de que sabia o que estava falando, pegou um pedaço de carne e foi sentar bem longe de Gabriela, porém seus olhos de águia acompanhavam cada gesto seu.
              - Droga! Está dando tudo errado. Sussurrou baixinho. Eu deveria estar conquistando a confiança dele e não o seu ódio. Como poderei saber algo sobre o manuscrito se não consigo nem ao menos ter uma conversa civilizada com ele?
              - Disse alguma coisa lady Dafhne? Perguntou o seu vigia.  
              - oh, não. É que realmente estou sentindo um formigamento no local da picada.
              - Hum... Você viu que tipo de cobra era?
              - Não. Foi enquanto eu me banhava no lago. Ela estava embaixo d’ água quando me picou. Mas senti seus dentes afiados a cortar-me a pele. Eles eram enormes.
              - É... , a julgar pelo espaço entre as perfurações é provável que tenha sido uma cascavel.
              - Cascavel? Mas essa cobra é perigosa, não é?
              - Sim, mas veja? O nosso comandante cortou no local e com certeza sugou o veneno. Não se preocupe que você já não corre perigo, graças ao Lord Ryan.
              - É. Graças a seu lord.


              Mal o dia amanhecera e Gabriela foi acordada por um leve pontapé em suas pernas. Lord Ryan a olhava com cara de poucos amigos. Tinha um galo na testa e o olho esquerdo inchado, levemente arroxeado. Com certeza estava sentindo muita dor de cabeça, já que flexionava o local com uma indisfarçável irritação.
              - Como vai a cabeça, my lord?
              Sem responder, emitiu um som que seria facilmente confundido com um grunhido e já montando em seu cavalo, replicou:
              - É bom não brincar com a sorte my lady. Não é toda hora que um homem está disposto a aceitar certas gentilezas  de alguém que não aprecia retribuí-las.
              - Eu gostaria que me perdoasse...
              - Arrependida por ter me batido com a pedra ou será por eu ter parado com minhas carícias my lady...
              - Ora, vejo que é impossível conversar com você! Olhe, eu só quis lhe agradecer por ter me salvo a minha vida ontem à noite. Se my lord não houvesse sugado todo o veneno, eu poderia estar morta agora.
              - E de que me valeria um prisioneiro morto? Morta não haveria troca. E retirar meus homens daquela masmorra imunda é tudo o que mais quero no momento. Ou realmente pensou que eu me importaria com alguém que vende o próprio corpo de forma tão desonrosa, como você tentou fazer ontem à noite para tentar fugir. Segui apenas meus instintos de homem, além do mais não precisa me agradecer. Fui bem pago pela boa ação que lhe conferi. Mas não me esquecerei da pedrada e pode esperar que no momento certo eu a farei pagar por isso.
             - Você não passa de um tirano lord Ryan, um tirano egoísta e frio.
             - Você está enganada my lady, tirano é o seu pai que massacra o povo a fim de multiplicar um ouro que não lhe pertence. Eu sou um homem quente e já provei o quanto isso é verdade ontem à noite. Frank vá em frente e verifique se não há nenhuma emboscada. Cortaremos caminho pelo rio. Isso apagará nossas pegadas e não corremos riscos de alguém descobrir o nosso vale.
             Imbecil, então acreditava que fora tudo um plano de fuga que não dera certo... Como ele se atrevia a pensar que seria capaz de usar o próprio corpo para fugir? Que o inferno o levasse. Iria provar-lhe que era digna e não uma prostituta. Odiando-se por ter sido tão fraca a ponto de permitir tanta intimidade, Gabriela jurou não sucumbir-se novamente aquele homem. Ele que não tentasse outra gracinha...

           - Tome, beba um gole de água my lady. Disse-lhe Marc, o mesmo homem magro e alto que havia sido seu vigia na noite anterior. O calor está insuportável e não sei como está agüentando essas roupas quentes num dia de sol forte como esse.
            - Não se preocupe comigo Marc. Assim que pararmos para descansar, pretendo retirar essa blusa de mangas.
            - Eu sinceramente nunca vi roupas mais esquisitas my lady. Sua dama de costuras tem um gosto bem diferente.
                Rindo da sinceridade do rapaz, Gabriela não lhe contou que aquele modelito além de só ser inventado dali a uns cinqüenta anos, também estava na última moda cento e setenta anos depois. Na verdade roupas daquele estilo sempre iam e voltavam no mundo da moda, mas isso pareceria loucura aos ouvidos daquele pobre homem.
         - Diga-me Marc, a quanto tempo vocês estão se escondendo nas montanhas?
         -Ora my lady! Que pergunta mais descabida... Então não sabe que estamos vivendo como fugitivos desde que seu pai tomou posse do castelo há dois anos?
             Olha, por favor não tente me enganar e tirar informações de mim. Eu não sou um homem mau, porém saberei ser caso coloque o meu povo em risco. Nós já pagamos um preço alto demais por ter ido contra as ordens do rei. Lord Ryan tomou a decisão correta a não concordar com os termos impostos pelo rei. No inverno passado Luís XV planejara invadir a Inglaterra. Mas a esquadra fora acolhida por uma tempestade e a idéia de invasão abandonada. Todavia, tornara-se óbvio, desde então, que o rei apoiaria o príncipe porque desejava ver no trono inglês um monarca que dependesse da França. Como era claro que Charles se valeria do apoio dele para retomar o lugar que era seu por direito. My lord foi sábio não aceitado tal decisão, queremos paz, nem que para isso venha primeiro a guerra.
           -Eu sei que muitos se debateram e dissecaram as intenções do rei Luís, discutindo o apoio a ser dados aos Jacobitas e ao príncipe Charles. Houve um consenso geral na Escócia de sustentar incondicionalmente o jovem príncipe, acreditando que à glória que ele conquistaria com seus feitos e armas, se somaria a glória de um governo bem conduzido.
         - Eu nunca conheci uma mulher que falasse tão bem quanto a senhorita my lady, mas sugiro que não comente muitos assuntos de política em nosso vale. Lá muitos, se não todos não concordariam com a senhorita. Para sua própria segurança é melhor que apenas ouça.
       - Para minha própria segurança... Já estou cansada de ouvir isso. E saiba que sei mais sobre os fracassos do príncipe Charles em suas batalhas do que você Marc. E não se preocupe, vocês reconquistarão o castelo e por muitos e muitos anos serão aclamados como heróis devido aos sacrifícios que fizeram em sua época...
        - O sol queimou-lhe os miolos sua louca? Gritou Ryan próximo aos dois. Você fala como se tudo o que estamos vivendo fosse passado. Ou será mesmo uma bruxa que com seus feitiços conseguiu ver o futuro? Se for, é bom que esteja certa em suas previsões. Espero que não tarde o dia em que verei tudo isso acontecer.
         Ainda com a cara fechada, aproximou-se de Gabriela e sem uma única palavra, abaixou-se e pegou no tornozelo ferido. Após observá-lo por alguns instantes deu meia volta e retornou para o lugar onde estava antes. Gabriela sabia que merecia tal tratamento depois do fizera, porém não se arrependia. Sabia que não poderia haver nada entre os dois, fosse ela Dafhne ou mesmo sendo Gabriela, Ryan era inimigo das duas.
       -É, parece que my lord não gosta mesmo da senhorita. Talvez seja melhor manter-se longe dele Lady Dafhne. My lady tem o poder de irritá-lo facilmente, coisa rara para uma mulher, afinal elas costumam agradá-lo e não duelar com as palavras o tempo todo.
      - Eu não duelei com ninguém, Marc.
      - Dessa vez não, mas eu tenho reparado no modo que vocês dois se falam. Há uma tempestade muito forte que rodeia os dois.
      - Tempestade?
      - Trovões, my lady, trovões! Disse rindo abertamente.
      - Trovões! Pois sim!  Então diga ao seu comandante que fique bem longe de mim, pois caso contrário, soltarei raios e trovões em cima dele, Marc!  
          - Impossível my lady. Saiba que o nosso lord Ryan não aceita ordens de ninguém, isso só o tornaria ainda mais raivoso e ninguém do nosso clã ousaria tanto. A fúria de my lord é pior que mil trovões!
          Mil trovões, não é? Pensou Gabriela. Já era hora de por um ponto final naquela birra. Não tinha medo de cara amarrada e não começaria a ter agora. Decidida, Gabriela forçou a marcha de seu cavalo e emparelhou-o ao de Ryan.
        - Novalgina.
        - Como?
        - Novalgina. Ou então outro analgésico qualquer. Sua dor de cabeça.... Tomo logo e acabe com essa cara amarrada. Ninguém gosta de sentir dor.
        - Então conhece as artes da cura? Também é uma curandeira além de bruxa?  
        - Bruxa! Pois que fique com sua dor de cabeça, seu grosso.
        - Espere! Disse Ryan segundo no pulso de Gabriela. Diga qual erva é essa novalgina e pedirei a alguém para procurá-la.
        Gabriela havia se esquecido ainda não existiam comprimidos naquela época. Sorte que conhecia e cultivava muitas plantas no quintal de sua casa, inclusive novalgina, vick e outras tantas. Explicando detalhadamente como era a folha da planta, Gabriela constatou ter ganhado alguns pontos na tentativa que fizera para ganhar a confiança de Ryan. Que por sua vez, após ouvi-la com atenção, lembrou-se ter visto tal erva a uns metros atrás e foi pessoalmente buscá-lo. Retornou pouco tempo depois e todos pararam por alguns instantes para que Gabriela fizesse um chá de novalgina para Ryan. Assim os outros poderiam aproveitar para dar água aos cavalos e descansar.
        Ryan bebeu todo o chá feito por Gabriela e fechou os olhos. Não tinha o gosto muito bom, mas era melhor que muita coisa que já havia bebido. Sentiu a dor ir aliviando aos poucos e agradecido, sorriu para Gabriela.
        - Creio, lady Dafhne, que lhe devo um obrigado. A dor que antes estava quase insuportável, já está bem melhor.
        - Que bom, fico feliz em saber.
        - Sabe você me intriga. Deveria estar satisfeita com a minha dor. Afinal eu te raptei e era de se esperar que quisesse fugir. Ou ficou com medo da minha vingança?
        - Pretendia mesmo se vingar, Ryan?
        - Não lhe ensinaram que não se deve usar o primeiro nome? É vulgar. Uma lady jamais falaria assim.
        - Talvez tenha razão. Talvez eu não seja uma lady de verdade.
        - Mesmo assim continua sendo a filha de um usurpador. É tão mimada que se acha no direito de falar de igual para igual como se fosse um homem.
        - Vejo que a dor já passou, Lord Ryan. Acho que é melhor voltar para perto de Marc.
        - Nada de gracinhas com meus homens my lady. Qualquer um deles pode pegar aquilo que você tem pra dar e não será uma pedrada que irá detê-los.
        - Ora, como não se foi justamente uma pedrada que deteve você, my lord!
        - Se fosse mais inteligente saberia que apesar da dor nada me deteria naquele momento a não ser eu mesmo. Eu simplesmente não a quis. Eu a descartei assim que percebi o seu joguinho.
        - Joguinho? Eu estava dormindo...
        - Dormindo? Se aquilo é dormir, imagino o que não fará acordada my lady...
        - Seu...
        - Basta! Vejam homens, finalmente chegamos ao nosso vale. Bem vinda ao seu novo lar, my lady…Espero que aprecie o cárcere.
        -Cárcere? Onde pensa em me manter, my lord?
        - Eu disse que me vingaria. Vamos homens, nossas mulheres nos aguardam!
        Mulheres? Ryan tinha uma mulher? Isso não fora citado nos livros que lera. Droga! Isso não estava nos planos. Como poderia pegar o manuscrito de Ryan, com uma mulher por perto a vigiar-lhe os passos. Com certeza mulher alguma a deixaria chegar perto de seu homem.
           Mulheres! Era disso que ele estava precisando. Procuraria Lola, ela sim era uma mulher que sabia como fazer um homem dormir sossegado depois de uma noite inteira de prazer. Lola. Linda e cheia de carinhos. Não precisava de nada mais para aliviar a tensão que formara entre suas entranhas desde o maldito momento que retirara lady Dafhne do lago. Pois deveria tê-la deixado lá, agonizando de dor ao invés de ter salvado aquela bruxa de pele macia.
           Frank, que se mantivera calado diante de todo percurso, deu um grito de alegria e saltando de seu cavalo abraçou e levantou no ar uma bela mulher de uns vinte e poucos anos, que correra ao encontro dele assim que avistaram as primeiras casas do vale. 
           Outros homens também abraçaram suas famílias e foi com tristeza que Gabriela viu Ryan beijar uma bela ruiva na boca, com um prazer evidente, o que fez com que Gabriela virasse o rosto e não visse o susto da ruiva e o sorriso vitorioso que esta lançou para todos os demais.
           - Levem a prisioneira para a cela comum e após darem de beber e comer tranquem-na lá.
          - My lord, não vejo necessidade de prendê-la na cela comum. Ela é nossa prisioneira, mas também é uma mulher. Ela pode ficar em minha casa, eu e Marcy cuidamos dela e...
         - Não! Ela irá para a cela comum. Está decidido, Frank, ela já tentou fugir na noite em que a pegamos. Eu não vou arriscar perder todo esse tempo à toa caso ela fuja daqui.
         - Mas Ryan, lá é frio e imundo!
         - E não é num lugar frio e imundo que alguns de nossos melhores homens estão confinados há dias? Ou será que uma masmorra repleta de ratos é melhor que um quarto com grades nas janelas? Não! Ela é nossa prisioneira e será tratada como tal. Agradeça aos céus por não receber o mesmo tratamento que os nossos pobres amigos ou teríamos de espancá-la e deixá-la passar fome.
        - Está certo! Mas eu mesmo irei verificar se ela está sendo bem tratada Ryan. Do jeito que você anda, eu não duvidaria nada se você viesse a espancá-la.
        - Eu já lhe disse uma vez que não permito crueldade no meu clã, Frank. De onde tirou essa idéia?
        - Desculpe–me, acho que essa história toda está afetando os meus miolos. 
        - Certo amigo, só não permita que uma mulher se coloque entre nós.
        - A única mulher que irá se colocar entre vocês my lord, serei eu. Disse Marcy, sorridente. Venha meu touro, eu tenho uma surpresinha te esperando em nossa casa.
        - Ryan, estarei em casa caso precise de mim.
        - Mais tarde, bem mais tarde benzinho.
        Ryan abraçou Lola e rindo ao receber os beijos da mulher, entrou em uma casa enorme enquanto Gabriela era levada para trás de um muro alto, onde logo após avistou uma casa branca e cheia de grade. Pelo menos não era um calabouço, pensou.

        





 Romance em andamento...Aguarde o Capítulo II.

Alexandra Leal

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