Capítulo V
- Ela acordou! Ela acordou! Lady Dafhne, ela finalmente acordou!
- Sério? E o que foi que ela disse? Ela disse quem é?
- Ela não se lembra de nada. Ela apenas se lembra de um nome que pode ser o dela.
- E que nome é esse, vamos diga!
- Gina. Ela disse que só se lembra disso e de que não pode ser encontrada agora, não antes de alguma coisa que ela não sabe o que é. Lady Marcy acha que a pancada na cabeça lhe afetou os miolos. Eu já acho que é a tal do desnexo que my lady me falou ontem.
- Palavras desconexas, Derek. Sim, pode ser isso sim. E o que mais aconteceu?
- Lady Marcy me mandou vir correndo até aqui para buscá-la, ora essas. Afinal ninguém mais do que my lady para saber a arte da cura. Vamos!
- Oh, graças. Vamos sim. Deus permita que tudo dê certo.
Havia se passado três dias desde que a verdadeira lady Dafhne acordara e quatro que não via Lord Ryan. No dia seguinte teria de encontrar um meio de chegar até a caverna e depositar sua mensagem debaixo da pedra, também esperava ansiosa por notícias de Pedro, cuja mensagem certamente já se encontrava lá e não sabia o que fazer. Havia ficado sabendo por Derek que Lord Ryan fora , junto com vários homens de sua confiança, tentar interceptar os homens do rei, pois uma vez tendo conhecimento de que eram poucos e estando lord Kennedy de Le Monde longe do castelo em viagem rumo ao norte, a tropa apenas pernoitaria por uma noite nos arredores ou no próprio castelo e seguiria viagem também para o norte na manhã seguinte. Lord Ryan achava que eles certamente trariam consigo informações preciosas e resolveu que seria de boa valia pegar tais informações e usá-las a seu favor e de seu povo.
- E então, Derek. Como está nossa Gina hoje pela manhã?
- Lady Marcy mandou-me buscá-la como tenho feito todas as manhãs. Parece que ela se lembrou de algumas outras coisas.
- Lembrou? Do quê?
- Eu não sei, ninguém me disse. Venha, vamos e logo saberemos.
- Olá, Gina. Derek me disse que você se lembrou de mais alguma coisa.
- Oh, bom dia my lady. Na verdade eu só me lembrei que sou nobre. Recordei da época de criança em que eu vivia em um castelo e que me apaixonei perdidamente por um senhor mais velho. Acho que isso deve ter sido muito importante para mim, para eu ter me lembrado tantos detalhes.
- E você se lembra que era esse senhor? Perguntou uma voz vinha de um canto do quarto, deixando Gabriela gelada de pavor.
Ryan se encontrava a apenas poucos menos da cama de lady Dafhne e a olhava com atenção, parecendo não notar a presença de Gabriela que começara a sentir algo semelhante a náuseas tamanha sua aflição diante da possibilidade de ser descoberta naquele instante.
- Não. É estranho. Como eu estava dizendo, tudo é muito nítido pra mim e repleto de detalhes, mas por alguma estranha razão quando tento me recordar desse senhor vejo apenas um vulto e não um rosto para lembrar-me o nome dele. Sei apenas que amei ou ainda amo esse senhor cujo rosto desconheço. Como é possível?
- Muitas vezes desconhecemos fatos ligados a nossa história o que nos impede de sabermos quem realmente somos mesmo sem termos perdido a memória my lady. Não se preocupe tanto, essa lembrança está solta em sua cabeça, com o tempo as peças do seu quebra-cabeças se encaixarão. Esse lenço amarrado em seu rosto não lhe incomoda?
Talvez fosse melhor retirá-lo para sua pele respirar um pouco, abafá-la pode retardar sua recuperação.
- Não my lord, eu agradeço a preocupação, mas eu prefiro manter o lenço por enquanto. Pelo menos até o inchaço e os hematomas melhorarem um pouco mais. Eu estou... muito feia, my lord.
- Bobagem. Todos nós sabemos que a queda foi feia e é natural que esteja machucada. Como disse antes com o tempo tudo se acertará.
- Espero que sim my lord.
- Vou deixá-la aos cuidados de nossa curandeira temporária. Estará em boas mãos. Com licença.
- Nossa, ele é lindo, não é mesmo lady Dafhne?
- Hã?! Como disse Gina?
- Lord Ryan, ele não é lindo?
- Oh, sim. Eu creio que sim. Diga-me, você não se lembrou mesmo de mais nada?
- E o que mais eu haveria de me lembrar?
- Oh, nada. Quer dizer, não sei. Tudo! Pensou consigo mesma.- Céus, por instantes pensou que tudo estava perdido.
- Hum, deixe-me ver seu rosto. Sim, está um pouco melhor.
- Vocês se parecem um pouco, sabiam?
- Como disse Derek?
- Vocês duas, my lady. Lady Gina é um pouco mais baixa e bem mais clara. A cor dos olhos também são um pouco diferente e a cor do seu cabelo é mais clara, quase loiro, enquanto que o cabelo de lady Gina é mais comprido e castanho mel. Mas olhando lady Gina assim sem o lenço tapando metade do rosto, vocês duas até que poderiam ser primas ou quem sabe irmãs. Bem diz a minha mãe que as aparências enganam, já que todo mundo sabe que my lady Dafhne além de ser filha única, também não tem parentes aqui na Escócia a não ser seu pai, o famigerado lord Kennedy. Ops! Mil perdões, my lady. Eu não quis ofendê-la.
- Você não me ofendeu Derek. Agora vá e deixe que eu cuide de lady Gina. Traga-me água morna para a infusão do chá e um pouco a mais de saião e sal. Da última vez você me trouxe poucas folhas e eu tive de sair para buscar mais.
- Sinto muito por aquela vez my lady. Sei que lord Frank brigou com a senhora.
- Ele não brigou Derek. Só me advertiu para não sair sozinha novamente.
- É eu sei. Às vezes é difícil lembrar que my lady é uma prisioneira.
- E ele só estava cumprindo ordens.
- Ah, já ia me esquecendo. Ouvi quando lord Ryan contou para lady Marcy que seu pai retornou ao castelo my lady.
- É mesmo? E o que mais?
- Só. Ouvi quando lady Marcy perguntou sobre o resultado da façanha e ele disse que as informações eram realmente muito valiosas e que lord Kennedy já havia retornado ao castelo e que ele enviaria uma mensagem ainda hoje sobre a troca e que lord Kennedy só souberam da sua fuga e da captura esta manhã. Parece que ele levou um susto.
- Como pode algo assim?
- Eu achei que lord Kennedy havia partido em busca de mais homens para iniciar uma verdadeira batalha em prol da minha libertação. De fato eu cheguei a pensar muitas coisas. Vá, Derek. Busque logo o que lhe pedi.
- Algo errado Gina?
- Esses nomes. Parecem familiares. A minha cabeça dói e eu não consigo me lembrar.
- Não se esforce demais. Logo estará tudo bem. Tente descansar um pouco e relaxe enquanto eu limpo o ferimento de sua cabeça. Já está quase secando e você deu sorte de não ter sido mais profundo ou teria sido fatal.
- Sorte maior foi ter alguém como my lady aqui, com tantos conhecimentos na arte da cura. Acho que não estaria me recuperando tão rápido se não fosse my lady.
- Um dia poderá me paga esse favor Gina. Hoje peço apenas que acredite que faço tudo o que faço por uma boa causa e que sou sincera quando digo isso.
- Apesar de não entender os seus motivos para dizer tais coisas, eu não me esquecerei e acredito em sua bondade e sinceridade. Seja qual for o motivo, se houver um, eu tentarei entendê-lo um dia quando esse dia chegar.
- Lady Dafhne, poderia dar-me um instante de sua atenção.
- Como não my lord. O que deseja? Pensei que preferisse fingir não me conhecer.
- Não conhecê-la? Por que diz isso my lady?
- Pelo simples fato de ter me ignorado agora a pouco dentro do quarto de lady Gina.
- Eu não a ignore my lady. Apenas não julguei conveniente conversarmos o que quer que fosse lá dentro. Afinal nossas conversas sempre terminam em brigas, não é mesmo?
- Eu não tenho culpa por isso.
- Sei que não. Eu esperei que saísse do quarto de lady Gina para informar-lhe que lord Kennedy já se encontra de volta e que desconhecia o fato de que my lady estivesse em meu poder.
- Como isso é possível my lord? Se já estou aqui há tantos dias?
- Ao que parece o capitão da guarda já não suportava mais levar reprimendas devido aos seus sumiços my lady. Sendo assim ocultou de lord Kennedy seu desaparecimento, acreditando que my lady fosse encontrada rapidamente, como era de costume. Ele só não contava com o seu seqüestro. Confesso que havia estranhado muito o fato de seu pai ter partido em viagem mesmo não sabendo seu paradeiro. Mas depois que retornei de minha jornada fiquei sabendo o que havia acontecido realmente. Gostaria de lhe agradecer por estar cuidando de lady Gina. Marcy me disse que nunca ter visto uma pessoa mais atenciosa do que my lady em seus cuidados.
- Não há pelo que me agradecer my lord. Penso que agora que meu pai retornou logo voltarei para casa.
- Enviarei ainda hoje um pedido de troca. Sei que meus homens nada sofreram na prisão além da pouca comida que seu pai fornece aos presos, mesmo assim é meu desejo que eles retornem o mais rápido possível para seus lares.
- Assim como prefere que eu também retorne o mais rápido possível para junto de meu pai e fique bem longe de você?
- Isso é my lady quem está dizendo, não eu?
- E o que você quer my lord?
- Não interessa mais o que eu quero lady Dafhne. O que me importa no momento é a segurança e o bem estar dos meus homens. Os que estão lá presos em meu próprio castelo e todos os que estão aqui escondidos, fugindo das ordens de um rei que não é o meu.
- E o que você quer que eu faça Ryan?
- E o que você quer que eu faça my lady? Que aceite as coisas assim como estão? Que permita que seu pai e seu rei escravizem meu povo, minha gente? Diga-me, o que espera de mim, Dafhne. Como quer que eu olhe para você e não veja todas as atrocidades em que você vive rodeada ou de quem você é filha? Seu pai é meu inimigo. Você é minha inimiga. Gritou Ryan segurando-a firmemente pelos braços.
- Eu não sou sua inimiga Ryan! Eu não sou! Gritou Gabriela entre lágrimas.
- Céus, perdoe-me. Eu não queria machucá-la. Eu não sei o que você faz comigo, mas eu não consigo me controlar quando estou perto de você my lady. Eu realmente sinto muito.
- Um passeio. Permita-me um passeio. Desde que você partiu, eu só tenho saído para cuidar de lady Gina e retornado para meu quarto.
- Quarto? Então passou a ver sua cela como um quarto e não mais como uma prisão? Está bem. Acho que é justo e além do mais pelo que me recordo alguns passeios fazem parte do nosso acordo.
- Manterá a promessa?
- Eu sempre cumpro com minha palavra my lady. Vá lavar esse rosto banhado de lágrimas desnecessárias e poderemos dar o seu passeio.
- Obrigada. Eu não demoro.
Gabriela pegou a mensagem que já havia escrito na noite anterior enquanto tentava achar um meio de chegar até a caverna e pegando outras roupas secas, pois sabia que teria de mergulhar nas águas do rio e atravessar a cachoeira para chegar à caverna.
- Quitutes?
- Oh, na verdade não. São algumas roupas para que eu possa nadar um pouco. Posso, não posso?
- Claro my lady. O sol ainda está alto e poderemos nos refrescar um pouco. Vamos?
- Essa não é a mesma montaria de antes.
- Anabel está prenhe e eu não quis arriscar um parto prematuro. Essa é Cherazade. Uma égua doce e calma. Você não terá problemas com ela.
- E o que faz você pensar que eu teria medo de montá-la?
- Ora Dafhne, nós dois sabemos que apesar de você ser melhor que muitos homens no manejo da espada, é insegura em cima de qualquer montaria.
- Bom, muito tempo se passou e veja, eu não temo mais cavalgar. Disse montando com destreza a égua para espanto de lord Ryan.
- Pelo que vejo muitas coisas mudaram realmente. Tanto que nem mesmo eu que julgava conhecê-la, já concordo que se tornou uma mulher completamente diferente do que eu esperava. Talvez seja melhor assim. Creio que a mulher que tenho diante de mim é bem mais interessante da menina de anos atrás.
- Olhe, Ryan! Fumaça!
- Índios. Há uma tribo indígena próximo daqui. Por que você acha que ainda não invadiram a floresta a nossa procura? Por mais que seu pai a ame ele teme um confronto indígena e talvez não queira arriscar, assim, a sua segurança.
- Mas não é perigoso? Sei que nessa época os índios escalpelavam todos que encontravam pelo caminho a fim de impedir que lhes retirassem suas terras.
- Fizemos um acordo. Eles nos deixam viver em paz aqui no vale até que possamos retornar ao castelo e nós emboscamos todos que por aqui passarem e lhes entregamos as armas e munições que arrecadarmos.
- Mas isso é loucura! Vocês estão armando os índios!
- É isso ou morrer my lady. Além do mais, eles sabem o que é ver suas terras arrancadas de suas famílias. Até por que eles conseguem ser muito mais leais do que alguns brancos que aceitam nossa hospedagem e afeição para depois nos apunhalar pelas costas como o seu pai fez.
- Ok. Vamos nos sentar debaixo da mesma árvore que sentamos da outra vez.
- De onde você tira essas palavras tão estranhas? Tudo bem, vamos nos sentar lá, afinal aquela é mesmo a árvore de melhor sombra. Ah, eu aproveitei enquanto você entrou para lavar o rosto e peguei algumas coisinhas lá na casa de alimentos e a senhora Arthood preparou essa cesta com algumas guloseimas.
- Você pensa em tudo my lord.
- Você ainda não me disse o que achou das mudanças nos meus escritos. Eu os peguei em seu quarto quando fui procurá-la.
- Quando foi isso my lord?
- Logo assim que cheguei. Mas você não se encontrava lá então eu peguei os meus papéis e fui ver como andava a nossa hóspede, pois me disseram que ela havia acordado.
- Mas quando eu cheguei com Derek my lord já se encontrava no quarto.
- A casa de Frank possui duas entradas em todos os cômodos caso eles precisem fugir sem serem notados. Eu apenas entrei por uma e my lady por outra.
- Muito engenhoso.
- Frank é um homem de muitas qualidades.
- É, muito engenhoso. Quanto aos índios, espero não encontrá-los num confronto de nunca, pois a simples visão da fumaça já me fez lembrar do que eles eram capazes de fazer.
- Do que são capazes de fazer, você quer dizer.
- Bom, se for preciso dialogar com eles talvez eu possa ajudar, eu estudei com um alguns anos atrás e sei um pouco de Cherokee e...
- Você o quê? Não, você só pode estar me gozando. Saber fazer a língua indígena. Só me faltava essa!
Gabriela começou a falar sobre o tempo na língua Cherokee, coisa que Ryan fora obrigado a aprender um pouco devido às circunstâncias. Ele teve de quase implorar ao grande chefe da tribo, Urso que voa, para que ele e sua gente pudessem permanecer ali. O grande chefe não só permitiu como também fez com que fumassem juntos o cachimbo da paz. Isso depois de Ryan ter passado em vários testes de coragem e astúcia. Caso contrário todos os homens de sua gente seriam mortos e escalpelados na frente das mulheres e crianças que se tornariam escravas dos índios.
- Como é que você...Oh, esqueça! Você já me surpreendeu demais por hoje, dê o seu mergulho my lady. A água parece deliciosa.
- Não gostaria de me acompanhar my lord?
- Com prazer my lady. Disse sorrindo.
- Espere. Permita-me dar um primeiro mergulho, depois você entra.
- Está bem.
Gabriela retirou as roupas ficando apenas de calcinha e sutiã na frente de Ryan sem se importar com os olhos arregalados dele e mergulhou. Chegando à caverna pegou a mensagem de Pedro que se encontrava debaixo da pedra conforme combinado e depositou a sua. Olhou ao seu redor e percebeu que havia um brilho vindo de uma das paredes. Aproximou-se um pouco mais e o que viu a deixou fascinada. Era diamante! Um diamante mesmo bruto havia sido escamado devido o gotejar incessante da cachoeira logo acima e fez que um pedaço bruto fosse um pouco lapidado pela própria natureza, brilhando com a luz do sol que vinha de uma fresta rochosa das paredes da caverna. Incrível! Eles devem ter descoberto esses diamantes a muito tempo e mantido segredo, pois não há relatos sobre diamantes por aqui, apenas suposições e pelo que vejo bem verdadeiras. Preciso voltar ou Ryan me achará e descobrirá a caverna.