Capítulo IV
“... Nossos primos continuam presos e por enquanto ainda estamos dependendo de você, minha irmã, para que as coisas se acertem. Temo esquecer fatos importantes caso algo se altere no futuro em decorrência de qualquer coisa que venha a acontecer no passado a ponto de mudar drasticamente toda a história, conforme conversamos anteriormente. Eu mesmo tenho escrito num diário tudo o que fizemos e o que terei ainda de fazer caso algo se perca devido a essas mudanças. Sei que vendo minha própria letra, saberei o que deve ser feito. Já não estou certo se devia tê-la mandado para o passado. Espero que esteja bem e que volte logo, sã e salva. Beijos, Pedro.”
- Agora já estou aqui, meu irmão, e não me arrependo nem um pouco. Não depois de hoje. Meu Deus, em pensar que Dafhne é o grande amor de Ryan e que ele só guarda dela um mero desenho de quando ela tinha treze anos. Sendo assim, hoje ela teria dezenove e eu vinte e cinco, seis anos a mais que lady Dafhne. Ryan contaria então com vinte e nove anos. Parecia uns cinco ou seis anos a mais. Não que estivesse envelhecido antes do tempo, mas devido ao fardo que viera carregando até ali e às batalhas e responsabilidades constantes. Ryan se tornara uma pessoa um pouco amarga e sério demais o que lhe dava uma aparência de homem mais maduro. Quanto a Dafhne e ela, seus pais já haviam citado sua semelhança coma antepassada, porém não o suficiente para ser confundida com ela por alguém que convivesse com lady Dahfne nos dias atuais.
- Atuais! Pois sim. Quase trezentos anos atrás.
- O que disse my lady?
- Marcy! Que bom vê-la novamente! Diga-me que está tudo bem com o pequeno Derek.
- Com ele sim. Venho por causa da garota que encontraram perto do lago. Ela está delirando. Bateu com a cabeça e perdeu muito sangue. Não creio que corra risco de vida, mas meu Frank achou melhor que você desse uma olhada nela para confirmar.
- Claro que sim, vamos.
Muitas mulheres e crianças alvoroçavam a vila. O grito agudo de uma ave enorme assustou Gabriela.
- Que ave é?
- Um corvo. Um grande corvo das montanhas.
- Pensei que fossem bem menores...
- E geralmente são. Meu Frank diz que se os caçadores continuarem abatendo as aves de rapina com vem fazendo, logo não haverá uma única ave a transitar no céu.
- Frank tem razão e o pior é que talvez muitas dessas aves nem venham a figurar nos livros de história. Eu mesma não me lembro de ter lido nada sobre corvos tão imensos quanto esse em nenhum livro que eu tenha lido.
- O meu Frank comentou que a senhorita tem muitos conhecimentos valiosos. Saber ler e escrever nos dias de hoje é algo raro para uma mulher, mesmo para uma lady.
- Ainda levará muito tempo, mas haverá um dia em que ler e escrever será uma obrigação não só dos pais para com seus filhos como também do governo em si. Haverá leis regulamentando isso e punições para aqueles que as desobedecer.
- Lord Ryan estava certo quando nos disse que algumas vezes my lady é capaz de assustá-lo com certas idéias e palavras estranhas. My lady fala utopias, mas é bonito sonhar coisas assim.
- Então Lord Ryan se assusta comigo às vezes, não é? É bom saber disso.
- Não caçoe de my lord, my lady, ele é um homem honrado e não merece tal atitude.
- Estou apenas achando engraçado, Marcy e ... meu Deus!
- Calma my lady. Ela está um pouco desfigurada com tantos hematomas no rosto e também não pude limpar todo o sangue do ferimento da cabeças por medo de fazer algo que causasse ainda mais dor à coitadinha, mas logo ela estará melhor e então poderá nos dizer quem é.
- Sim, sim, Marcy. Você tem razão. Venha me ajude a virá-la de bruços para que eu possa ver melhor o ferimento da cabeça, depois vamos fazer alguns bálsamos com ervas para tentar diminuir o inchaço do rosto e a dor.
Gabriela não tinha dúvidas de quem se tratara a enferma. A marca de nascença na altura do ombro esquerdo um pouco voltado em direção dos seios era a mesma que carregava no próprio corpo e no local quase exato a dela. Apesar da imagem um pouco deformada devido ao inchaço da queda de cavalo, aquela mulher não era outra senão Lady Dafhne de Lle Monde sua antepassada e ta-ta-ta-tara alguma coisa avó. Mesmo apavorada diante da contestação do fato, Gabriela limpou e costurou o ferimento da cabeça de lady Dafhne. Solicitou algumas ervas medicinais que conhecia e após fazer ungüentos e pastas de vick, saião e outros tantos procedimentos que ajudariam na cicatrização e recuperação da pele, Gabriela pediu que a levassem de volta.
- Creio que no momento não há mais nada que possamos fazer por ela a não ser esperar que acorde e que a dor não seja tão forte.
- Tenho certeza de que ela estará bem melhor quando acordar, my lady. Eu nunca vi curandeira tão sábia quanto my lady. Quem a ensinou, foi a mesma pessoas que a ensinou ler e escrever?
- Muitas pessoas me ensinaram muitas coisas, Marcy. Acho que a própria vida vai nos ensinando.
- Tenho tentado guardar tudo o que my lady vem fazendo com as ervas, tenho prestado bastante atenção para quando my lady retornar para os seus, eu possa ajudar um pouco mais minha gente.
- Você tem um coração generoso. Agora preciso descansar, estou exausta.
- Amanhã pedirei a um dos homens que a traga para trocar as bandagens e verificar o ferimento. Mais uma vez obrigada por nos ajudar.
- Disponha.
- Santo Deus e agora o que farei quando a verdadeira lady Dafhne acordar? Estou perdida. Pesa nessa cela não poderei nem ao menos tentar fugir caso ela acorde e diga quem é. Ryan certamente me odiará.
- Irei odiá-la pelo que my lady?
- Ryan!
- Eu lhe disse que conversaríamos numa outra hora e aqui estou. Gostaria também de falar-lhe sobre algumas idéias que pretendo por no papel caso minha vida se finde antes de reconquistarmos o que é meu por direito. Tenho certeza que meus homens terminarão o que comecei em honra ao que são, por isso não quero deixar um bando de pessoas perdidas em meio a multidão sem saber o que fazer.
- Foi pensando nisso que resolveu escrever o manuscrito? Então ele é uma espécie de testamento? Disse Gabriela com voz entrecortada e lágrima nos olhos.
- O que foi minha pequena... Qual o motivo dessas lágrimas? Será que minha morte traria alguma tristeza ao seu coração?
- Ora, Ryan! Mas que pergunta! É claro que eu morreria de tristeza se isso lhe acontecesse.
- Sério? Perguntou sorrindo.
Gabriela percebera tarde demais que havia revelado o que vinha em seu coração e abaixou os olhos sem ter coragem de encará-lo, no mesmo instante sentiu o calor dos lábios de Ryan sobre suas pálpebras, olhando-o nos olhos Gabriela percebeu que ele a olhava fixamente com olhos investigadores que fez Gabriela se arrepiar.
- Estranho. Seus olhos sempre fora de um castanho profundo, confundindo-se co ouro ao pôr-do-sol e agora estão esverdeados como folhas no início do outono. Eu me lembro bem, pois costumava compará-los com os tesouros de um rei devido ao brilho que emanavam deles e nesse instante eu os vejo de um tom ameno.
- Dizem que o tom da cor dos olhos muda com o tempo.
- É verdade, pode ser pelo fato de você ter se entristecido. A emoção pode ter lhe alterado a cor dos olhos. Eu só a vi com lágrimas uma vez e era noite escura, talvez isso tenha acontecido naquela época também e eu não pude observar. Você se lembra?
- Muito tempo se passou desde então Ryan.
- Pelos Céus, você não se lembra mesmo, não é? Como pode não se lembrar Dafhne? Esbravejou.
- Eu ... eu era apenas uma criança! Eu só tinha treze anos e...
- Mas você jurou. Fechando os olhos e calando-se por um momento que pareceu uma eternidade, ele manteve-se quieto. Está certo. Eu não posso esperar nada de uma simples criança. Também não tenho de exigir que você cumpra juras de um amor que nunca existiu, ou talvez tenha existido apenas num momento de ilusão infantil, como se estivesse brincando de bonecas naquela época. Acho que fantasiei mais do que você afinal de contas. Peço desculpas my lady, não vou importuná-la mais com coisas do passado.
- Ryan, eu...
- Basta, my lady! Devo avisá-la que uma mensagem foi enviada ao seu pai esclarecendo que mylady encontra-se em nosso poder e que em breve informaremos quando será a troca. Acredito que seu pai esteja preocupado com seu paradeiro e segurança, portanto não vejo por que retardar mais o momento. Logo estará novamente com sua família e agora com licença.
- Ryan, por favor, eu preciso falar com você. Não vá embora assim!
- O manuscrito. Falemos então do manuscrito.
- Como vê ele continua aí onde o deixei. Leia-o e depois me diga o que achou depois. Agora eu preciso ficar só.
- Eu sinto muito.
- Não há motivos. Você não tem culpa de não se lembrar de coisas sem importância que lhe aconteceu há tantos anos atrás. Esqueça Dafhne, eu também já não me lembro mais. E dizendo tais palavras saiu sem olhar para trás.
- Inferno! Será que será sempre assim? Será que eu estarei sempre estragando tudo? O manuscrito. Pelo menos isso. Poderei lê-lo e ver se agora ele esta semelhante ao que temos em nosso cofre.
Duas horas mais tarde Gabriela havia constatado que apesar de algumas mudanças aqui e ali e fora outras anotações, Ryan nada alterara no manuscrito e aquele estava longe de ser o que sua família guardara tão bem durante séculos.
- Será que o nosso manuscrito é mesmo falso, meu Deus?
- Falando sozinha my lady?
- Pelo jeito esse é um costume que adquiri aqui, meu querido. Como está se sentindo? É Derek o seu nome, não é?
- Sim my lady. Bom, minha mão me pediu que viesse aqui para trazer essa cesta de frutas frescas e bolo, como forma de nossa gratidão. Também tem um pedaço de queijo e um pouco de leite. O leite foi idéia minha. Nós temos uma vaca e bem, eu achei que era o mínimo que eu podia fazer depois do que my lady fez por mim.
- Não precisava, mas eu agradeço do fundo do meu coração. Sabe Derek, há algo que você poderia fazer por mim.
- Basta dizer e eu o farei my lady.
- Eu gostaria que você me informasse como está indo a garota que socorreram hoje. Eu estive lá e gostaria de saber caso ela melhore e acorde. Uma pancada na cabeça pode causar sérios problemas e talvez ela diga coisas desconexas, sem sentido, sabe? Eu realmente ficarei muito agradecida se você me trouxer noticias da garota.
- Pode deixar comigo, my lady. Todas as vezes que eu passar pela casa de lord Frank, eu darei uma ida até lá para saber tudinho sobre a pobre.
- Pobre?
- É, tadinha. Já pensou quando a coitada acordar e se olhar no espelho? Ela vai ter um susto danado. Minha mãe disse que ela devia ser muito bonita antes do acidente, mas que talvez jamais volte a ter a beleza de antes.
- Não é para tanto. Ela está um pouco feia agora é verdade, mas logo todo o inchaço sumirá levando consigo todos os hematomas e então todos saberão quem ela é. Disse estremecendo com suas próprias palavras.
- My lady fala como se soubesse. Por acaso faz idéia de onde ela seja my lady?
- Quem, eu? Que idéia Derek. É lógico que não. Eu só falei assim porque sei que tudo ficará bem no final. Pelo menos é o que eu espero.
- My lady deve ser mesmo uma feiticeira como ouvi a senhora Arthood falar.
- Senhora Arthood?
- Ela é responsável pela horta do vale. Aqui todos nós somos responsáveis por alguma coisa. É o que lord Ryan chama de ação em conjunto para o bem de todos. Eu sou responsável pelo leite de nossa vaca. Eu retiro todas as manhãs o suficiente para mim e meus pais e o resto eu levo para a casa de alimentos lá eles juntam tudo e distribuem para aqueles que são responsáveis por outras coisas. Assim todos nós temos um pouco de tudo e não fica faltando nada para ninguém.
- E foi lord Ryan que teve essa idéia, Derek?
- Foi. Todos dizem que lord Ryan é um homem de muitas idéias. Que ele é mais sábio que o próprio rei.
- De fato ele é um homem muito a frente de seu tempo.
- Como assim my lady.
- Ele tem idéias que poderiam ser seguidas daqui a séculos e que talvez dessem muito certo. Agora vá, meu pequenino e não se esqueça do que combinamos. Qualquer notícia sobre a nossa hospede me avise.
- Nossa hospede. Risos. My lady até parece ser uma de nós e não uma prisioneira. Eu prefiro assim. Não gosto de pensar que my lady está presa nessa cela, mas sei que é preciso e é por uma boa causa. Logo my lady estará livre novamente e poderá vir nos visitar de vez em quanto até podermos voltar para nossa casa.
- Você sente falta de lá, não é mesmo?
- Sinto. Sinto sim, mas o que mais sinto falta é dos meus brinquedos novos que tiveram de ficar para trás. É que não dava tempo, nem caberia tudo na carroça na qual fugimos. Mamãe disse na época que tínhamos de levar só o necessário. Eu era pequeno, só tinha seis anos, mas me lembro bem. Já tem dois anos que estamos aqui e apesar de ser bom poder correr em meio a natureza aberta, eu não vejo a hora de poder voltar para casa e para minha antiga escola, mesmo estando estudando aqui também.
- Você logo voltará querido. Tenha um pouquinho de paciência e tudo voltará a ser ainda melhor para vocês do que era antes. Acredite em mim, em menos de um ano vocês não só estarão de volta aos seus lares como também gozarão de uma vida muito mais farta.
- Lord Frank, eu só vim trazer essa cesta e já estava voltando para casa.
- Claro que estava pequeno. Vá agora e aproveite para cuidar daquele seu cão. Ele andou correndo outra vez atrás das galinhas do velho Bill.
- Já estou indo my lord. Até depois my lady.
- Até Derek.
- Eu pensei encontrar Lord Ryan aqui my lady. Ele havia me dito que viria mostrar-lhe algumas coisas que ele havia posto no papel para quando retornarmos aos nossos lares.
- E ele estava, mas como vê já foi embora. Eu não sabia que você era um lord, Frank.
- Na verdade eu e Lord Ryan somos primos, mas eu sempre o chamei de lord desde pequeno. Era uma espécie de brincadeira e o fato de estimá-lo muito fez com que eu mantivesse o tratamento.
- Entendo. Mas você me parece um pouco exaltado my lord.
- Oh, por favor, my lady me chame apenas por Frank. É assim que todos me chamam.
- Não Derek.
- Derek é apenas um menino e como todo menino da idade dele, sonha em ser um cavaleiro ou vir a possuir títulos de nobreza um dia. E agora com sua licença, preciso mesmo encontrar lord Ryan com urgência.
- Não pode me dizer o motivo para tanta urgência?
- Acho que não tenho motivos para esconder. Uma guarda real está para vir ao castelo. Deve chegar em três dias e sinto informar para my lady que seu pai não se encontra no castelo, portanto teremos de adiar um pouco o seu retorno para junto dos seus. O que por um lado é bom, já que minha Marcy me disse que my lady tem ajudado com a garota que encontramos perto do rio.
- Como vocês a encontraram? Têm idéia de que possa ter cometido tal ato com uma moça indefesa?
- Não podemos afirmar com certeza, mas pelas marcas de patas na terra parece que a garota estava fugindo de algo e o cavalo quebrou a pata e ela caiu de cabeça numa pedra próximo ao rio. Ela teve sorte de não ter caído na água e se afogado. Ela portava algumas roupas consigo e uma espada. O que muitos de nós ainda achamos estranho. O resto só ela mesma poderá nos dizer. Como já disse tenho de contar as novidades para lord Ryan. Com licença mais uma vês my lady.
- Tenha um bom dia Lord Frank.