domingo, 4 de dezembro de 2011

Romance: Além dos Séculos - Capítulo IV


Capítulo IV





            “... Nossos primos continuam presos e por enquanto ainda estamos dependendo de você, minha irmã, para que as coisas se acertem. Temo esquecer fatos importantes caso algo se altere no futuro em decorrência de qualquer coisa que venha a acontecer no passado a ponto de mudar drasticamente toda a história, conforme conversamos anteriormente. Eu mesmo tenho escrito num diário tudo o que fizemos e o que terei ainda de fazer caso algo se perca devido a essas mudanças. Sei que vendo minha própria letra, saberei o que deve ser feito. Já não estou certo se devia tê-la mandado para o passado. Espero que esteja bem e que volte logo, sã e salva. Beijos, Pedro.”

             - Agora já estou aqui, meu irmão, e não me arrependo nem um pouco. Não depois de hoje. Meu Deus, em pensar que Dafhne é o grande amor de Ryan e que ele só guarda dela um mero desenho de quando ela tinha treze anos. Sendo assim, hoje ela teria dezenove e eu vinte e cinco, seis anos a mais que lady Dafhne.  Ryan contaria então com vinte e nove anos. Parecia uns cinco ou seis anos a mais. Não que estivesse envelhecido antes do tempo, mas devido ao fardo que viera carregando até ali e às batalhas e responsabilidades constantes. Ryan se tornara uma pessoa um pouco amarga e sério demais o que lhe dava uma aparência de homem mais maduro. Quanto a Dafhne e ela, seus pais já haviam citado sua semelhança coma antepassada, porém não o suficiente para ser confundida com ela por alguém que convivesse com lady Dahfne nos dias atuais.
            - Atuais! Pois sim. Quase trezentos anos atrás.
            - O que disse my lady?
            - Marcy! Que bom vê-la novamente! Diga-me que está tudo bem com o pequeno Derek.
            - Com ele sim. Venho por causa da garota que encontraram perto do lago. Ela está delirando. Bateu com a cabeça e perdeu muito sangue. Não creio que corra risco de vida, mas meu Frank achou melhor que você desse uma olhada nela para confirmar.
           - Claro que sim, vamos.
           
           Muitas mulheres e crianças alvoroçavam a vila. O grito agudo de uma ave enorme assustou Gabriela.
           - Que ave é?
           - Um corvo. Um grande corvo das montanhas.
           - Pensei que fossem bem menores...
           - E geralmente são. Meu Frank diz que se os caçadores continuarem abatendo as aves de rapina com vem fazendo, logo não haverá uma única ave a transitar no céu.
           - Frank tem razão e o pior é que talvez muitas dessas aves nem venham a figurar nos livros de história. Eu mesma não me lembro de ter lido nada sobre corvos tão imensos quanto esse em nenhum livro que eu tenha lido.
           - O meu Frank comentou que a senhorita tem muitos conhecimentos valiosos. Saber ler e escrever nos dias de hoje é algo raro para uma mulher, mesmo para uma lady.
           - Ainda levará muito tempo, mas haverá um dia em que ler e escrever será uma obrigação não só dos pais para com seus filhos como também do governo em si. Haverá leis regulamentando isso e punições para aqueles que as desobedecer. 
           - Lord Ryan estava certo quando nos disse que algumas vezes my lady é capaz de assustá-lo com certas idéias e palavras estranhas. My lady fala utopias, mas é bonito sonhar coisas assim.
           - Então Lord Ryan se assusta comigo às vezes, não é? É bom saber disso.
           - Não caçoe de my lord, my lady, ele é um homem honrado e não merece tal atitude.
           - Estou apenas achando engraçado, Marcy e ... meu Deus!
           - Calma my lady. Ela está um pouco desfigurada com tantos hematomas no rosto e também não pude limpar todo o sangue do ferimento da cabeças por medo de fazer algo que causasse ainda mais dor à coitadinha, mas logo ela estará melhor e então poderá nos dizer quem é.
          - Sim, sim, Marcy. Você tem razão. Venha me ajude a virá-la de bruços para que eu possa ver melhor o ferimento da cabeça, depois vamos fazer alguns bálsamos com ervas para tentar diminuir o inchaço do rosto e a dor.
          Gabriela não tinha dúvidas de quem se tratara a enferma. A marca de nascença na altura do ombro esquerdo um pouco voltado em direção dos seios era a mesma que carregava no próprio corpo e no local quase exato a dela. Apesar da imagem um pouco deformada devido ao inchaço da queda de cavalo, aquela mulher não era outra senão Lady Dafhne de Lle Monde sua antepassada e ta-ta-ta-tara alguma coisa avó. Mesmo apavorada diante da contestação do fato, Gabriela limpou e costurou o ferimento da cabeça de lady Dafhne. Solicitou algumas ervas medicinais que conhecia e após fazer ungüentos e pastas de vick, saião e outros tantos procedimentos que ajudariam na cicatrização e recuperação da pele, Gabriela pediu que a levassem de volta.
         - Creio que no momento não há mais nada que possamos fazer por ela a não ser esperar que acorde e que a dor não seja tão forte.
         - Tenho certeza de que ela estará bem melhor  quando acordar, my lady. Eu nunca vi curandeira tão sábia quanto my lady. Quem a ensinou, foi a mesma pessoas que a ensinou ler e escrever?
        - Muitas pessoas me ensinaram muitas coisas, Marcy. Acho que a própria vida vai nos ensinando.
        - Tenho tentado guardar tudo o que my lady vem fazendo com as ervas, tenho prestado bastante atenção para quando  my lady retornar para os seus, eu possa ajudar um pouco mais minha gente.
        - Você tem um coração generoso. Agora preciso descansar, estou exausta.
        - Amanhã pedirei a um dos homens que a traga para trocar as bandagens e verificar o ferimento. Mais uma vez obrigada por nos ajudar.
        - Disponha.


        - Santo Deus e agora o que farei quando a verdadeira lady Dafhne acordar? Estou perdida. Pesa nessa cela não poderei nem ao menos tentar fugir caso ela acorde e diga quem é. Ryan certamente me odiará.
        - Irei odiá-la pelo que my lady?
        - Ryan!
        - Eu lhe disse que conversaríamos numa outra hora e aqui estou. Gostaria também de falar-lhe sobre algumas idéias que pretendo por no papel caso minha vida se finde antes de reconquistarmos o que é meu por direito. Tenho certeza   que meus homens terminarão o que comecei em honra ao que são, por isso não quero deixar um bando de pessoas perdidas em meio a multidão sem saber o que fazer.
         - Foi pensando nisso que resolveu escrever o manuscrito? Então ele é uma espécie de testamento? Disse Gabriela com voz entrecortada e lágrima nos olhos.
         - O que foi minha pequena... Qual o motivo dessas lágrimas? Será que minha morte traria alguma tristeza ao seu coração?
        - Ora, Ryan! Mas que pergunta! É claro que eu morreria de tristeza se isso lhe acontecesse.
        - Sério? Perguntou sorrindo.
        Gabriela percebera tarde demais que havia revelado o que vinha em seu coração e abaixou os olhos sem ter coragem de encará-lo, no mesmo instante sentiu o calor dos lábios de Ryan sobre suas pálpebras, olhando-o nos olhos Gabriela percebeu que ele a olhava fixamente com olhos investigadores que fez Gabriela se arrepiar.
         - Estranho. Seus olhos sempre fora de um castanho profundo, confundindo-se co ouro ao pôr-do-sol e agora estão esverdeados como folhas no início do outono. Eu me lembro bem, pois costumava compará-los com os tesouros de um rei devido ao brilho que emanavam deles e nesse instante eu os vejo de um tom ameno.
        - Dizem que o tom da cor dos olhos muda com o tempo.
        - É verdade, pode ser pelo fato de você ter se entristecido. A emoção pode ter lhe alterado a cor dos olhos. Eu só a vi com lágrimas uma vez e era noite escura, talvez isso tenha acontecido naquela época também e eu não pude observar. Você se lembra?
       - Muito tempo se passou desde então Ryan.
       - Pelos Céus, você não se lembra mesmo, não é? Como pode não se lembrar Dafhne? Esbravejou.
      - Eu ... eu era apenas uma criança! Eu só tinha treze anos e...
      - Mas você jurou. Fechando os olhos e calando-se por um momento que pareceu uma eternidade, ele manteve-se quieto. Está certo. Eu não posso esperar nada de uma simples criança. Também não tenho de  exigir que você cumpra juras de um amor que nunca existiu, ou talvez tenha existido apenas num momento de ilusão infantil, como se estivesse brincando de bonecas naquela época. Acho que fantasiei mais do que você afinal de contas. Peço desculpas my lady, não vou importuná-la mais com coisas do passado.
      -  Ryan, eu...
      - Basta, my lady! Devo avisá-la que uma mensagem foi enviada ao seu pai esclarecendo que mylady encontra-se em nosso poder e que em breve informaremos quando será a troca. Acredito que seu pai esteja preocupado com seu paradeiro e segurança, portanto não vejo por que retardar mais o momento. Logo estará novamente com sua família e agora com licença.
     - Ryan, por favor, eu preciso falar com você. Não vá embora assim!
     - O manuscrito. Falemos então do manuscrito.
     - Como vê ele continua aí onde o deixei. Leia-o e depois me diga o que achou depois. Agora eu preciso ficar só.
     - Eu sinto muito.
     - Não há motivos. Você não tem culpa de não se lembrar de coisas sem importância que lhe aconteceu há tantos anos atrás. Esqueça Dafhne, eu também já não me lembro mais. E dizendo tais palavras saiu sem olhar para trás.
     - Inferno! Será que será sempre assim? Será que eu estarei sempre estragando tudo? O manuscrito. Pelo menos isso. Poderei lê-lo e ver se agora ele esta semelhante ao que temos em nosso cofre.
      Duas horas mais tarde Gabriela havia constatado que apesar de algumas mudanças aqui e ali e fora outras anotações, Ryan nada alterara no manuscrito e aquele estava longe de ser o que sua família guardara tão bem durante séculos.
      - Será que o nosso manuscrito é mesmo falso, meu Deus?
      - Falando sozinha my lady?
      - Pelo jeito esse é um costume que adquiri aqui, meu querido. Como está se sentindo? É Derek o seu nome, não é?
      - Sim my lady. Bom, minha mão me pediu que viesse aqui para trazer essa cesta de frutas frescas e bolo, como forma de nossa gratidão. Também tem um pedaço de queijo e um pouco de leite. O leite foi idéia minha. Nós temos uma vaca e bem, eu achei que era o mínimo que eu podia fazer depois do que my lady fez por mim.
     - Não precisava, mas eu agradeço do fundo do meu coração. Sabe Derek, há algo que você poderia fazer por mim.
     - Basta dizer e eu o farei my lady.
     - Eu gostaria que você me informasse como está indo a garota que socorreram hoje. Eu estive lá e gostaria de saber caso ela melhore e acorde. Uma pancada na cabeça pode causar sérios problemas e talvez ela diga coisas desconexas, sem sentido, sabe? Eu realmente ficarei muito agradecida se você me trouxer noticias da garota.
     - Pode deixar comigo, my lady. Todas as vezes que eu passar pela casa de lord Frank, eu darei uma ida até lá para saber tudinho sobre a pobre.
     - Pobre?
     - É, tadinha. Já pensou quando a coitada acordar e se olhar no espelho? Ela vai ter um susto danado. Minha mãe disse que ela devia ser muito bonita antes do acidente, mas que talvez jamais volte a ter a beleza de antes.
     - Não é para tanto. Ela está um pouco feia agora é verdade, mas logo todo o inchaço sumirá levando consigo todos os hematomas e então todos saberão quem ela é. Disse estremecendo com suas próprias palavras.
    - My lady fala como se soubesse. Por acaso faz idéia de onde ela seja my lady?
    - Quem, eu? Que idéia Derek. É lógico que não. Eu só falei assim porque sei que tudo ficará bem no final. Pelo menos é o que eu espero.
    - My lady deve ser mesmo uma feiticeira como ouvi a senhora Arthood falar.
    - Senhora Arthood?
    - Ela é responsável pela horta do vale. Aqui todos nós somos responsáveis por alguma coisa. É o que lord Ryan chama de ação em conjunto para o bem de todos. Eu sou responsável pelo leite de nossa vaca. Eu retiro todas as manhãs o suficiente para mim e meus pais e o resto eu levo para a casa de alimentos lá eles juntam tudo e distribuem para aqueles que são responsáveis por outras coisas. Assim todos nós temos um pouco de tudo e não fica faltando nada para ninguém.
   - E foi lord Ryan que teve essa idéia, Derek?
   - Foi. Todos dizem que lord Ryan é um homem de muitas idéias. Que ele é mais sábio que o próprio rei.
   - De fato ele é um homem muito a frente de seu tempo.
   - Como assim my lady.
   - Ele tem idéias que poderiam ser seguidas daqui a séculos e que talvez dessem muito certo. Agora vá, meu pequenino e não se esqueça do que combinamos. Qualquer notícia sobre a nossa hospede me avise.
   - Nossa hospede. Risos. My lady até parece ser uma de nós e não uma prisioneira. Eu prefiro assim. Não gosto de pensar que my lady está presa nessa cela, mas sei que é preciso e é por uma boa causa. Logo my lady estará livre novamente e poderá vir nos visitar de vez em quanto até podermos voltar para nossa casa.
   - Você sente falta de lá, não é mesmo?
     - Sinto. Sinto sim, mas o que mais sinto falta é dos meus brinquedos novos que tiveram de ficar para trás. É que não dava tempo, nem caberia tudo na carroça na qual fugimos. Mamãe disse na época que tínhamos de levar só o necessário. Eu era pequeno, só tinha seis anos, mas me lembro bem. Já tem dois anos que estamos aqui e apesar de ser bom poder correr em meio a natureza aberta, eu não vejo a hora de poder voltar para casa e para minha antiga escola, mesmo estando estudando aqui também.
    - Você logo voltará querido. Tenha um pouquinho de paciência e tudo voltará a ser ainda melhor para vocês do que era antes. Acredite em mim, em menos de um ano vocês não só estarão de volta aos seus lares como também gozarão de uma vida muito mais farta.
    - Lord Frank, eu só vim trazer essa cesta e já estava voltando para casa.
    - Claro que estava pequeno. Vá agora e aproveite para cuidar daquele seu cão. Ele andou correndo outra vez atrás das galinhas do velho Bill.
    - Já estou indo my lord. Até depois my lady.
    - Até Derek.
    - Eu pensei encontrar Lord Ryan aqui my lady. Ele havia me dito que viria mostrar-lhe algumas coisas que ele havia posto no papel para quando retornarmos aos nossos lares.
   - E ele estava, mas como vê já foi embora. Eu não sabia que você era um lord, Frank.
   - Na verdade eu e Lord Ryan somos primos, mas eu sempre o chamei de lord desde pequeno. Era uma espécie de brincadeira e o fato de estimá-lo muito fez com que eu mantivesse o tratamento.
   - Entendo. Mas você me parece um pouco exaltado my lord.   
   - Oh, por favor, my lady me chame apenas por Frank. É assim que todos me chamam.
   - Não Derek.
   - Derek é apenas um menino e como todo menino da idade dele, sonha em ser um cavaleiro ou vir a possuir títulos de nobreza um dia. E agora com sua licença, preciso mesmo encontrar lord Ryan com urgência.
   - Não pode me dizer o motivo para tanta urgência?
   - Acho que não tenho motivos para esconder. Uma guarda real está para vir ao castelo. Deve chegar em três dias e sinto informar para my lady que seu pai não se encontra no castelo, portanto teremos de adiar um pouco o seu retorno para junto dos seus. O que por um lado é bom, já que minha Marcy me disse que my lady tem ajudado com a garota que encontramos perto do rio.
   - Como vocês a encontraram? Têm idéia de que possa ter cometido tal ato com uma moça indefesa?
   - Não podemos afirmar com certeza, mas pelas marcas de patas na terra parece que a garota estava fugindo de algo e o cavalo quebrou a pata e ela caiu de cabeça numa pedra próximo ao rio. Ela teve sorte de não ter caído na água e se afogado. Ela portava algumas roupas consigo e uma espada. O que muitos de nós ainda achamos estranho. O resto só ela mesma poderá nos dizer. Como já disse tenho de contar as novidades para lord Ryan. Com licença mais uma vês my lady.
    - Tenha um bom dia Lord Frank.

  

               

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Romance: Além dos Séculos - Capítulos II e III

Capítulo II



         Sentada num banquinho de madeira e com o olhar perdido; fora assim que Ryan a encontrou no dia seguinte. Após uma longa noite de delírio sentia-se em pleno domínio sobre seu corpo, mas não gostou da imagem que viu ao deparar-se com a mulher que havia infernizado dois dias de sua vida. Isso sem contar a noite, cujos momentos teimavam a vir em seus pensamentos por mais que tentasse esquecê-los.
        Gabriela olhava para fora da janela pelas grades de sua prisão. Não saberia dizer o tempo que estivera ali, tanta coisa lhe havia acontecido em tão pouco tempo... Tempo! Precisava encontrar a pedra solta por trás da rocha dentro da caverna. Ela havia combinado com Pedro, seu irmão, de manter contato através de mensagens escondidas debaixo dessa pedra. Eles dois havia pesquisado juntos e concluíram que aquela pedra estivera ali por mais anos do que o necessário para ser considerada o refúgio perfeito de suas comunicações. Ela esconderia a mensagem debaixo da pedra a cada cinco dias e Pedro a pegaria, sendo quase trezentos anos depois. O mesmo faria Pedro e ela estava ansiosa por já encontrar alguma notícia sobre o que estava acontecendo em sua época, pois não tinha certeza se algum fato da história no futuro, fora alterado com a sua chegada no passado. Sentindo o corpo dolorido pelas longas horas de cavalgada e pela noite mal dormida. Ficara acordada quase a noite toda imaginando Ryan nos braços de Lola. Sabia que era pelo fato de ter lido muito a respeito dele e por admirá-lo por sua bravura, beleza e coragem. Era incrível poder vivenciar toda a história de seus antepassados e inimigos pessoalmente.
           - Pensando num meio de fuga my lady?
           - Não, na verdade pensava em você. Respondeu sem pensar diante do susto que levara.
           - Em mim? O que você estava pensando Dafhne?
           - Dafhne? Não foi você mesmo que disse não ser correto chamar alguém pelo primeiro nome uma vez que não há intimidade para tal?
           - Touchè!   Se bem que se for por intimidade acho que já usufruímos o suficiente dela para chamá-la de Dafhne, não concorda? Mas me diga o que pensava?
           - Pensava que estamos sendo ambos tolos por duelarmos assim um com o outro o tempo todo. E chega de falar o tempo todo naquela maldita noite!
           - Maldita?! Disse Ryan aproximando-se ainda mais e segurando os braços de Gabriela com força trazendo-a para junto de si. Ora minha gata arisca, imagino o quanto possa ser selvagem ao se entregar com paixão. E sem perder tempo apossou dos lábios entreabertos de Gabriela, que espantada com tal reação, permitiu-se beijar com ardor, rodeando os braços ao redor do pescoço de Ryan.
           Por Deus! Parecia estar no céu. Gabriela não estava preparada para as emoções que estava sentindo. Um buraco se formara na boca de seu estômago e um calor começava a subir-lhe pelas entranhas. Ryan deslizava as mãos com dedos hábeis por todo o seu corpo, detendo uma das mãos em um de seus mamilos flexionando-o levemente com uma sensualidade que fez Gabriela estremecer dos pés a cabeça.
          Sentindo Gabriela render-se aos seus carinhos, Ryan aprofundou o beijo apertando-a ainda mais contra o seu corpo, permitindo que ela sentisse todo o seu desejo. Estavam numa cela, ninguém os interromperia... Com um sorriso maléfico nos lábios, Ryan jogou Gabriela sobre a cama fria da cela e por alguns segundos ficou olhando para a mulher que antes beijara com ardor.
           - Isso é só uma prova feiticeira, de que você não é a única que sabe fazer alguém perder a cabeça. Eu lhe disse que me vingaria. Isso é só o começo, quando eu quiser ir até o fim pode ter certeza de que irei e ninguém virá te socorrer. Até lá fique com as migalhas dos meus beijos, eu já me saciei de sexo ontem à noite, mas é bom saber que posso ter um pouco mais com você quando me convier...
          - Nunca! Eu prefiro a morte!
          - É mesmo?! Pois não foi o que me pareceu minutos atrás. Zombou saindo da cela e deixando Gabriela amaldiçoando-se por tamanho desatino.    
          - Urrrgh! Até quando meu Deus terei de agüentar esse homem idiota!
          - My lady,  a senhorita gostaria de um pouco de café agora?  My Lord veio ver se estava com fome, mas saiu sem uma única palavra.
          - Sim, obrigada Marcy. Gostaria de poder dar uma volta lá fora. O dia está quente e aqui dentro é abafado demais.
          - Não creio que my lord consinta lady Dafhne. Afinal como ele mesmo disse, a senhorita é uma prisioneira. Mas verei isso mais tarde quando ele estiver mais... calmo.
          - Você poderia vir comigo. Notei haver um rio depois daquela colina, próximo a uma árvore frondosa.
         - Você quer ir até a cachoeira, mas como você sabe da existência dela ou de tal árvore se você nunca esteve lá antes?
         - Cachoeira? Não, eu gostaria de ficar um pouco sozinha na caverna. Eu... ouvi, é isso, eu ouvi alguns homens conversando enquanto vínhamos para o vale sobre uma caverna que...
         - Não há nenhuma caverna my lady. Respondeu sorrindo amigavelmente. Eles provavelmente estavam querendo impressioná-la contando histórias sobre cavernas e animais ferozes. Apesar das caras feias todos têm um bom coração, inclusive my lord.
         - Diga-me Marcy, Ryan e Lola são casados?
         - Casados? Pelos céus! Não! Lola é uma desgarrada que escolheu my lord para seu homem. Lord Ryan aceita os agrados dela que por ser viúva e sem filhos acha que pode viver como bem entende. My lord tem um amor secreto sim, mas isso ninguém comenta.
         - Amor secreto? Quem?
         - Eu já disse que isso ninguém comenta. Foi há muito tempo quando ele ainda era um menino. Depois disso ele ficou apenas com um desenho dela.
         - Desenho?
         - É, lord Ryan é um excelente desenhista e já naquela época conseguiu desenhá-la  com perfeição.  O desenho foi tudo que lhe restou. Depois a família dela foi para longe e quando retornaram as coisas haviam mudado e my lord não pôde sequer vê-la novamente. Marcy a olhava com estranha atenção enquanto falava e parecia não compreender algo após ter terminado o relato sobre a vida de Ryan. Parece que tudo mudou mesmo, não é?
         - É, afinal antes Ryan era o senhor do castelo e hoje um fugitivo.
         - E o fato de sermos todos fugitivos faz com que sejamos diferentes do que sempre fomos my lady?  Podem tirar nossas casa e terras de nós, mas não podem tirar-nos a dignidade e a nossa auto-presevação. Somos livres e temos o direto à nossa própria escolha, não queremos ser controlados como marionetes por um rei que não é nosso!
         - A guerra existe, Marcy. E por mais que doa, temos que aprender a conviver com as mudanças. A ela damos o nome de progresso.
        - Eu nunca ouvi tal palavra, mas não estranho vindo de você. Assim como agora compreendo por que o nosso lord Ryan anda tão severo e irritado. Pensei que my lady fosse diferente. E com cara de poucos amigos saiu da cela, deixando Gabriela pasma diante de tal reação.
       - E agora, meu Deus? O que foi que fiz ou disse para causar isso?  
       Dois dias! Teria que achar a caverna em dois dias. A vegetação estava diferente com muitas árvores que já não existiam em seu tempo. Aliás, aquele vale era totalmente diferente do que conhecia. Não havia ainda a planície aberta onde costumavam descer com o helicóptero em suas pesquisas. Ela e Pedro não tinham como prever tais mudanças, porém sabia a exata localização da caverna devido ao rio. Bastaria seguí-lo sempre ao norte. Não conseguia entender como eles ainda não haviam descoberto a caverna, se bem que com toda aquela vegetação tapando tudo era possível e se assim fosse, isso seria um trunfo para ela, pois poderia refugiar-se lá caso precisasse. Dois dias, teria de pensar num jeito de sair dali. O manuscrito deveria estar dentro do quarto de Ryan, o tempo estava passando e até aquele momento não descobrira nada.
          O Clã dos Mcdonald haviam supostamente falsificado um manuscrito a fim de favorecer seus interesses políticos ao longo dos anos. Todos os bens que a família de Gabriela possuía foram tomados com a descoberta de manuscrito tido como original após uma minuciosa pesquisa. O manuscrito fora para no Museu Municipal e na tentativa de apanhá-lo para conferir com o outro que a família de Gabriela possuía, ocorrera o assalto e seus primos foram condenados à morte pelo assassinato de três homens. Gabriela precisava saber qual dos dois manuscritos era verdadeiro e tentar salvar seus primos. Ela e Pedro acreditavam que tornando público o manuscrito original, poderiam autenticá-lo com o passar dos anos legalizando para sempre a sua condição de legítimo. Esse fato alteraria os cursos da história livrando seus primos da tentativa do roubo do manuscrito e da acusação de assassinato. Gabriela sabia também que se fosse pega no passado, ela que possivelmente seria mandada à forca, o que era costume naquela época e então além de nada poder fazer para ajudar sua família, também não existiria em sua época. Mesmo sabendo dos riscos ela estava ali e precisava manter contato com Pedro.
        






















      


                                                           Capítulo III





       - Acorde my lady, eu sei que já é noite, mas uma criança da vila está com febre muito alta e lord Ryan precisa dos seus conhecimentos de cura.
        - Quantos anos têm a criança, Frank? O que mais ela está sentindo?
        - Parece que comeu algo envenenado. Os pais tentaram vários meios para esvaziar-lhe o estômago do menino, mas só sai espuma. Ele tem seis ou sete anos.
        - Eu não tenho poder de cura, apenas conheço alguma coisa sobre as plantas, pois sou bioquímica.
        - Bio o quê?
        - Ah, deixe para lá, meu amigo, leve-me até o menino.
        O menino deveria está com quase quarenta graus de febre e Gabriela temia que ele entrasse em coma. Algo assim naquela época poderia ser fatal uma vez que não havia recursos e pelo fato de não ser médica.
         - Encham aquela tina com água fria e vamos tentar abaixar a febre com um banho frio. Pena não existir gelo nessa época.
        - Ainda estamos muito longe do inverno para nevar my lady. Respondeu aflita a mãe do menino.
        - Pronto. Agora me tragam álcool e alguns pedaços de pano. Vamos colocá-los embebidos pelo álcool debaixo das axilas e na virilha dele, pode ser esse uísque que está em cima da mesa caso não tenham álcool, isso deverá abaixar a febre. Peguem também folhas de novalgina e façam o mesmo chá que fizeram para lord Ryan.
        Mesmo espantados diante das ordens, todos obedeceram. Não demorou muito para a febre abaixar e a criança abrir os olhos.
        - Diga-me garoto, o que foi que você comeu?
        - Cogumelos my lady, mas foi só uma mordidinha. O Joe disse que eu não tinha coragem de comê-los e eu não quis que pensassem que eu era um covarde.
        - Pois saiba que você poderia ter morrido e um herói morto nunca recebe os louros da glória. Graças a Deus por ter sido apenas uma mordida e pelo visto bem pequena, ou você não estaria aqui para nos contar a sua façanha.
        - Obrigado my lady. Disse o menino meio envergonhado.
        - Bem, agora todos podemos voltar para nossas casas e dormir sossegados. Malcon me acorde caso Derek volte a ter febre. Você e sua esposa podem me chamar a qualquer hora.
        - Eu lhe agradeço my lord e a my lady também, por ter salvado a vida de meu filho.
        - Estou feliz por ter podido ajudar.
        - Vamos, eu a levarei de volta para sua cela.
        - Acha mesmo necessário me manter presa lá?
        - Você é minha prisioneira Dafhne, não se esqueça disso.
        - Como poderia me esquecer my lord, se você me lembra disso o tempo todo.
        - Agora que estamos a sós, me diga onde aprendeu que uísque serve para abaixar a febre. A novalgina também me surpreendeu. Pode então essa erva servir para aliviar a dor e também a febre?
       - Na realidade não precisava ser uísque, poderia ser qualquer tipo de álcool. Quanto à segunda pergunta sim, a novalgina serve para isso e outras coisas também.  Eu aprendi muitas coisas desse tipo com os mais velhos, com a própria vida e outras tantas coisas que sei aprendi estudando.
        - Estudando? Então sabe ler?
        - E escrever também. Sempre gostei de ler muitos livros. Sei desenhar e pintar muito bem, quando pequena costumava retratar partes do que lia nos livros através de desenhos e ficavam muito bons.
        - Não pode está falando sério! Ler e escrever desde criança e ainda por cima saber desenhar, eu nunca soube desses seus dons.
        - Ler e escrever não são dons Lord Ryan. Desenhar e pintar sim.
        - Se de fato é tão boa quanto diz prove.
        - Agora? No meio da madrugada?
        - Não. Assim que amanhecer irei buscá-la com papel, pena e tinta. Nós iremos para algum lugar tranqüilo, lá você poderá desenhar, escrever e ler. Se conseguir fazer as três coisas...
        - Se eu conseguir, o que acontecerá my lord?
        - Concederei a você um pedido e também me desculparei por ter duvidado.
        - Feito! Porém exijo que me deixe escolher o lugar.
        - Como, se não conhece o vale?
        - Marcy me falou de uma cachoeira, talvez uma caverna.
        - Caverna? Não há cavernas por aqui my lady, mas há uma bela cachoeira. Inclusive era justamente lá que eu pretendia levá-la.
        - Ótimo. Mas será que a sua Lola não irá me arrancar os olhos por isso?
        - Lola? Perguntou rindo abertamente. Lola é uma excelente companhia, mas sabe qual é o seu lugar, não se preocupe.
        -  Na sua cama suponho.
        - Na minha cama quando me convém, não vou negar. E por que deveria ser diferente já que sou homem e ela uma bela mulher?
        - Você não é nem um pouco modesto Ryan.
        - Ora lady Dafhne, nós dois sabemos que em matéria de prazer eu me saio muito bem, então para que ser modesto? Além do mais esse mesmo prazer que Lola tem em minha cama pode muito bem ser seu, basta querer.
       - A minha resposta é não, lord Ryan.
       - Minha pequena Dafhne, eu não fiz pergunta alguma e saiba que não farei caso isso venha a acontecer. Você já se mostrou bem satisfeita com meus carinhos e sei que eu a terei no momento em que eu quiser então para quê falsos pudores?
      - Falsos pudores? Por quem me toma my lord?
      - Não venha querer me iludir que é virgem, pois uma donzela jamais se entregaria às artes do amor do jeito que você fez comigo. Você sabia o que estava fazendo e por Deus o fez muito bem.
     - Pois saiba que aquilo foi tudo o que terá de mim Ryan. Você nunca mais irá tocar em mim novamente. Está me ouvindo bem?
     - Como queira minha gata enfezada. Será você que irá me tocar primeiro, você vai ver.
     - Espere sentado.
     - Expressão estranha... Mas não se preocupe querida, pois esperarei deitado. A não ser que você prefira esta posição quando fizermos amor. O que prova o que eu disse anteriormente. Está bem que seja do jeito que você quiser...
     - Ora seu... Saia da minha frente Ryan. Saia agora!
     - Sairei. Agora que já está segura em sua cela irei dormir. Amanhã te apanharei bem cedo. Não tome o seu desejum. Faremos isso juntos. Durma bem.
     - Droga! Como foi difícil me controlar para não jogar algo bem pesado na cabeça daquele presunçoso. Não importa. Amanhã terei a oportunidade que eu tanto ansiava. Poderei encontrar a caverna e colocar a minha mensagem debaixo da pedra. Espero que haja alguma para mim também. Pedro já deve ter notícias se o fato de eu ter vindo para cá alterou ou não o tempo presente e o que eu terei de fazer, de acordo com os livros de história, caso os fatos tenham realmente se alterado com a minha vinda.
          Após ter escrito a mensagem explicando detalhadamente tudo o que ocorreu com ela até ali, Gabriela finalmente dormiu. Sabia que o dia seguinte lhe reservaria muitas surpresas.  Faria um mapa da floresta e de todo o vale, tentaria transpor para o papel cada  detalhe importante tanto para poder ser rápida com as futuras mensagens, quanto para explicar para Pedro as mudanças ocorridas naquele território com o passar do século. Com certeza não havia registro sobre nada disso nos livros geográficos ou históricos. Pedro era um cientista. Era astrofísico entre outras tantas coisas. Fora capaz de construir uma ponte interdimensional, tudo bem que fora por acaso e com um grande golpe de sorte; mas após vários testes com animais de diversos tamanhos ele conseguira o que todos julgavam impossível e ela estava ali, presa numa cela e apaixonada... Não! Apaixonada não! Ela não podia estar apaixonada e não estava. Certamente era o cansaço e tudo o que estava lhe acontecendo. Afinal, não era todo dia que uma mulher se deparava com o único homem que julgara capaz de se apaixonar um dia e em pensar que a primeira vez em que olhara para a foto dele no livro de história, ela ficou por horas fantasiando como seria conhecê-lo pessoalmente. Isso ainda na adolescência, só vários anos depois recorrera àquele mesmo livro e outros mais quando Pedro pediu sua ajuda para pesquisar sobre o manuscrito e tentar provar que o manuscrito tão bem guardado por sua família ao longo dos séculos era mesmo verdadeiro e não uma fraude. Não estava apaixonada. Só envolvida pelas circunstâncias e ansiosa por resolver logo toda aquela confusão. Tinha certeza que seu coração estaria mais calmo pela manhã e que não pensaria tantas bobagens a respeito de alguém que nem existia em sua época...
        - Droga! Mas ele é real agora e isso não dá para esquecer! Jamais conseguirei esquecer os seus toques e beijos Ryan. Mesmo não estando apaixonada eu jamais conseguirei tirar de minhas lembranças que um dia eu te senti de verdade junto a mim. Raios! E ainda por cima passei a esbravejar, isso seria assustador já em meu tempo aos olhos de minha mãe, quanto mais aqui numa época em que ser lady vale tanto quanto os dobrões de ouro do rei.  Tenho de voltar logo ou ficarei louca...


         O dia amanheceu ensolarado e quente. Ryan batia na porta de sua cela quando Gabriela abriu os olhos. Ele tinha as feições relaxadas como se houvesse dormido a noite inteira e não apenas poucas horas como ela.
         - Então? Preparada para provar se desenha, lê e escreve tão bem quanto quer me fazer crer?
         - Preparadíssima!
         - Vamos logo que o dia está lindo lá fora e eu preparei um bom lanche e alguns frios e bolos para quando tivermos fome mais tarde.
         - Passaremos o dia inteiro fora fazendo piquenique?
         - Pique o quê?
         - Piquenique, é o nome que se dá quando saímos para passar o dia fora e comer ao ar livre.
         - Eu não sabia. Vejo que trouxe muitas novidades da Inglaterra, lady Dafhne. Aqui eu simplesmente diria que iremos passar boas horas juntos. Bem, assim espero.
         - Eu também my lord. Eu também.
           Cavalgaram cerca de quarenta minutos e logo Gabriela começou a reconhecer alguns trechos que percorrera com Pedro anteriormente. As mudanças não eram tantas assim afinal de contas. Reparou que no lugar da enorme clareira havia árvores  gigantescas, certamente extintas no presente, pois não conhecia aquele tipo de folhagem.
          - Que árvore é esta my lord? Eu não a conheço.
          - É apenas uma árvore. Temos muitas delas por aqui. Não dá frutos, apenas algumas flores bem pequenas se compararmos com o tamanho do tronco ou das raízes que apesar de bem resistentes, ficam expostas o que até nos facilitaria em momentos difíceis caso viermos a precisar derrubá-las para retardarmos o inimigo diante de uma possível fuga. Seus galhos também são excelentes para uma boa fogueira, pois custam a queimar e também bons para a construção de jangadas e possivelmente também para embarcações, mas isso é só uma suposição.
          Estava explicado porque aquela árvore provavelmente deveria estar mesmo extinta. Com tantas utilidades o homem de trezentos anos atrás jamais pensaria que no futuro aquela e tantas outras árvores e animais silvestres não existiriam mais privando assim a humanidade de vir a conhecê-los um dia. O que era uma pena.
          - Veja lady Dafhne, a cachoeira Heart. Não é mesmo uma beleza? Nós a batizamos assim devido ao formato de coração que as águas formam durante a queda.
          Gabriela não podia acreditar em seus olhos. Ela estava diante do monte Heart.  O mesmo monte cujo interior era a caverna onde ela e Pedro entraram tantas vezes, dormiram e planejaram vários dos pequenos detalhes que ela não poderia esquecer durante a viagem de ida e de volta. As águas batiam estrondosamente de encontra às rochas criando um clima de magia no ar, uma vez que a impressão era de que as água viravam fumaça ou névoa a subir por entre a queda natural da própria cachoeira. Sem dúvida estava diante de algo místico o que a fizera lembrar da lenda cuja alma de um antigo cacique havia aparecido certa vez no alto do monte Heart e flutuando em meio a mesma névoa que tinha diante de si, havia salvado tanto lord Ryan quanto vários outros dos seus seguidores em uma emboscada que certamente teria massacrado a todos caso tal aparição não ocorresse.  Ela se perguntava se mais alguém além dela sabia da existência da caverna por trás da cachoeira. Isso seria mais uma vantagem a favor dela.
         - Não gostou? Parece que viu algo assombroso.
         - E vi. É realmente linda my lord! Estou fascinada diante de tamanha beleza. Eu jamais pensei que esse monte poderia ter sido uma cachoeira um dia.
         - O que disse?
         - Oh, nada. Desculpe-me, vamos colocar a toalha aqui debaixo dessa árvore? A sombra dela é mesmo enorme. Vocês poderiam plantar várias delas my lorde. Já que é tão fácil de arrancá-las talvez um dia já não haja tantas por aqui.
        - Plantar árvores? Ora my lady, quantas idéias estranhas sai de sua cabeça! Temos muitas coisas mais importantes do que plantar árvores. Seu blefe, por exemplo. Venha sente-se ao meu lado e me ajude com esses papéis. Se realmente sabe ler e escrever tão bem quanto diz, poderá me provar verificando se estou sendo claro em minhas palavras para que qualquer um que vier a lê-los compreenda de forma clara e simples o que escrevi e não distorça as minhas idéias por causa de palavras mal formuladas.
       - O manuscrito! Meu Deus, é o manuscrito!
       - Sim eu estou escrevendo à mão, mas por que o espanto? São apenas alguns esboços das minhas propriedades com dimensões exatas para quando eu retomar o que é meu e alguns relatos sobre toda a riqueza existente dentro e fora do castelo antes de seu pai tê-lo usurpado em nome do seu rei. Por que pretendo ter o que é meu de volta Dafhne. E isso nem você nem ninguém irá me impedir de conseguir. Eu e cada família que vive hoje nesse vale e sofre pelas perdas com a fuga. Teremos tudo, cada animal, cada peça de ouro, cada mísera colher de prata, tudo voltará para nossas mãos nem que eu tenha de morrer por isso.
      - Eu sei Ryan. Não duvido de nada disso, só não esperava ver esse manuscrito aqui e agora. Aliás, hoje estou tendo muitas surpresas boas.
       - Não vejo que motivos o simples fato de ver alguns esboços de desenhos ou algumas notas sobre animais, objetos e outras coisas possa influenciar para melhorar o seu dia, Dafhne. Você deveria ficar irritada por pensar em perder todo o conforto que usufruía enquanto estava em meu castelo. Diga-me em que quarto dormia, na torre ou na ala azul?
       - No mais belo com certeza!
       - Então o da ala azul. Sabia que era lá que eu dormia? Talvez você estivesse dormindo em meu quarto, em minha cama sem o saber. Isso chega a ser engraçado, sabe? Por muitas vezes eu imaginei que era lá mesmo que você dormia...
       - E ficou a imaginar onde eu dormia por quê? Devia estar querendo me enforcar durante o sono ou coisa parecida?
       - Coisa parecida. Mas vejo que não tira os olhos dos papéis. Tome leia-os e diga-me o que acha. Ou será que mentiu ao dizer que sabe ler?
       - Dê-me o manuscrito Ryan e eu o lerei em voz alta para você. Você não imagina o quanto esperei e tudo pelo que passei para ter esse manuscrito em minhas mãos.
       - Creio que está levando mesmo a sério a nossa aposta. Aqui está.
       - Sim, o mapa do castelo confere. Disse após avaliar o desenho diante de si. Mas algo está errado em seu...relato.
       - É verdade? E o que é?
       - Não é assim que deveria começar e você está distorcendo tudo, apesar dos detalhes não há nada referente a parte que você cede alguns hectares de terra para os Le Monde e...
       - Ficou maluca? Está para nascer o dia em que farei tal loucura! Então foi por isso que se mostrou tão interessada nesses papéis? Quer retirar de mim algo assinado e com a minha assinatura lavrar o meu destino: de destituir legalmente o que é meu por direito até diante dos olhos de meu rei, caso o seu rei venha a perder o trono e passá-lo para você e seu pai. Sua víbora! Dê-me já estes papéis!
       -  Ryan, está enganado. Não é nada disso! Eu só estou confusa, eu não pensei em nada disso...
       - Provou que sabe ler Dafhne. Lê e entende muita coisa para uma mulher. Pois bem, peço desculpas por ter duvidado. Deveria saber que alguém como você não se contentaria aos afazeres de uma lady. Faça o seu pedido antes que eu mude de idéia.
       - Mas ainda falta eu escrever e desenhar.
       - Apenas desenhar. Notei que fez algumas anotações e também até alguns desenhos enquanto víamos para cá. Mesmo assim gostaria que desenhasse algo belo. Mas isso pode ficar para depois agora me diga qual é o seu pedido ou talvez eu mude de idéia. Já não estou bem certo se isso tudo não passou de um plano seu para vir comigo até aqui.
      - Para que my lord? Fugir?
      - Eu não duvidaria my lady. Principalmente depois dessa manhã. Fiquei sabei através de espiões que já estão a sua procura, em breve meus homens mandarão a mensagem sobre a troca. Quero os meus homens de volta Dafhne e só depois disso eu a deixarei partir.
       Surpresa Gabriela apenas consentiu. Lady Dafhne devia ter fugido novamente. Só esperava ter tempo o suficiente para entender o manuscrito antes que a verdade fosse revelada. Algo não batia. O manuscrito em poder de sua família não era aquele e tão pouco o que se encontrava no museu. Ryan disse ser apenas um rascunho, um esboço. Pedro podia tê-la enviado um pouco mais no futuro quando o manuscrito já estivesse pronto...
        - Se tenho direito a um pedido, gostaria de poder vir até aqui de vez em quando. Você poderá vir comigo se quiser me vigiar. Como disse gosto de desenhar e aqui deve ter paisagens lindas. Posso dar uma volta ou um mergulho nas águas da cachoeira?
        - Nesse instante? Claro, seria um prazer admirá-la nadar ou nadarmos juntos. Mas não tem roupas adequadas e a mesmos que nade nua...
       - Posso nadar com minhas roupas de baixo e você seria um cavalheiro se não olhasse enquanto entro na água.
       - Não posso prometer algo que não pretendo cumprir my lady. Mas posso dar uma volta e contar até dez e voltar.
       - Trinta.
       - Vinte e nem pense em fugir.
       - Está bem, vire-se então para que eu possa me despir.
       - Um, dois,...
       Aproveitando o momento Gabriela pegou a mensagem, enrolou-a num pedaço de couro e colocou-a dentro de seu sutiã. Despiu-se rapidamente e pulou dentro da água.
       - Vinte. Viu? Sei ser um cavalheiro quando quero.
       - Vou mergulhar por alguns minutos. Não se preocupe pois consigo prender minha respiração por muito tempo.
       - Não duvido minha pequena sereia. Mas lembre-se que não há como fugir uma vez que tenho toda a extensão do rio diante do meu campo de visão.  
       - Volto à tona em alguns minutos. E mais do que depressa mergulhou e nadando o mais rápido que podia alcançou o vão após a cachoeira e entrando no interior da caverna. Quem imaginaria! A luz, mesmo tênue, clareava grande parte da gruta, escurecendo apenas na passagem que levava até o outro lado do monte, passagem esta também oculta por algumas paredes naturais de pedra e vegetação. Fora difícil para ela e Pedro ultrapassarem as paredes por serem escorregadias e de difícil acesso. Agora agradecia a Deus por isso, caso contrário a caverna já teria sido descoberta e não teria aquele esconderijo para proteger-se caso precisasse um dia.
      - A pedra! Aqui está você. Oh, valha-me Deus, uma mensagem de Pedro, graças. Essa lerei na cela e agora pronto a minha já está debaixo da pedra para que Pedro possa apanhá-la no futuro. Só espero que a alteração das horas não interfira e Pedro a encontre logo, afinal era noite quando cheguei e dia quando cheguei aqui. Eu ganhei ou perdi uma quatro ou cinco horas. Tenho de voltar rápido antes que Ryan venha me procurar.
          - Dafhne!   Dafhne, volte ou irei buscá-la.
          - Aqui estou.
          - Nunca mais faça isso de novo ouviu bem?
          - O quê? Eu não fiz nada. Eu disse que demoraria um pouco.
          - Foi mais do que um pouco. Eu desconheço alguém que consiga prender a respiração por tanto tempo como você. Se já se banhou o suficiente vou me vira para que você saia.
         - E se eu não quiser sair?
         - Nesse caso eu mesmo terei de tirá-la daí.
         - Você não ousaria.
         - Não? E com um sorriso nos lábios Ryan livrou-se num milésimo de segundos da camisa e pulo de calças dentro d’água.
         - Ryan, não! Eu estava brincando, Ryan!
         - Eu já lhe disse para não brincar comigo feiticeira.
         E apossando de seus lábios num gesto de posse, Ryan a beijou colando seu corpo ao dela num abraço apertado, lhe acariciando as formas perfeitas e sentindo sua virilidade pulsar de prazer.  Gabriela gemeu não suportando resistir mais nem um minuto, entregou-se aquele beijo com abandono. Como não desfrutar de tal néctar dos Deus. Como se afastar de algo pelo qual ansiara por anos e anos, mesmo quando julgara ser impossível viver tais momentos com alguém que só conhecera nos livros de história. A mensagem!
           - Ryan! Pelo amor de Deus pare!
           - Não minha feiticeira. Dessa vez você será minha, como deveria ter sido dez anos atrás.
           - Dez anos atrás? Ryan! Pare, Ryan! Eu não sei do que está falando.
           - Como não?! Você tinha treze e eu vinte e três. Você não pode ter se esquecido Dafhne. No seu quarto, na ala azul, o mesmo quarto que passou a ser meu depois e no qual você passou a dormir quando seu pai se apossou do castelo quatro anos depois. Eu me controlei na época, pois a julguei jovem demais e eu não quis tirar-lhe a pureza sem as bênçãos de Deus. Achei que deveria esperar mais alguns anos até que tivesse idade para se casar, pois me senti um monstro ao desejar alguém tão jovem, por isso eu me afastei e viajei só retornando com a morte de meu pai. Só que eu não contava com a revolta de poderes e que seu pai e o meu haviam se tornado inimigos durante a minha ausência, lutando de lados opostos. Diga-me que se lembra Dafhne!
         - Eu...
         - Lord Ryan! Desculpe-me my lord, mas uma tropa de lord Garret Mcdonald foi vista próximo ao vale. Nós a interceptamos e recolhemos as armas e espadas. Infelizmente todos os oito homens foram mortos em combate my lord.
         - Infelizmente, bom homem.  Por outro lado, talvez tenha sido melhor assim. Desse modo não teremos delatores sobre o nosso esconderijo. Vista-se, lady Dafhne. Eu e Aquiles a esperaremos mais adiante. Por favor, seja rápida. Precisamos retornar ao vale.
        - Também encontramos uma mulher desmaiada junto ao lago durante nossa chegada ao vale. Ela estava sem cavalos ou bagagens. Acredito que tenha sido vítima de saqueadores, my lord. Nós a levamos para casa de Frank. Marcy pediu para cuidar dela. Ela ainda não recobrou os sentidos, mas está bem.
         - Ótimo, assim que ela acordar poderá nos dizer o que aconteceu. Pronta my lady? Conversaremos mais tarde, my lady. Sinto se me excedi, mais tarde conversaremos sobre o assunto.
          Assumindo uma postura séria e compenetrada, Ryan seguiu conversando com o mensageiro como se nada houvesse acontecido minutos atrás. Parecia que o homem ardente e sedutor nunca houvesse existido e Gabriela sentiu um sabor amargo na boca. Ryan a beijara e quase a seduzira pensando que ela fosse realmente lady Dafhne. Era por Dafhne que ele sentia desejo ou quem sabe até amor, não ela. Isso de alguma forme lhe doía o peito e a fazia se sentir, pela primeira vez, uma traidora por estar enganando a todos com uma mentira que mesmo não tendo sido sua idéia, ela aproveitara a oportunidade que lhe fora dada de bandeja sem pensar duas vezes. Agora se encontrava naquela situação e não poderia culpar ninguém a não ser a si mesma. Em pensar que chegara a acreditar ser possível que Ryan houvesse se apaixonado de verdade por ela. Que grande ilusão! Como explicar-lhe toda a verdade se ele jamais acreditaria numa única palavra sua e de que valeria explicar, se em breve partiria deixando tudo o que vivera para trás. Estava ocupando um lugar que não era seu. Não havia registros sobre lady Dafhne e Ryan juntos nos livros, neles só lera que uma mulher de extrema coragem e destreza com a espada lutara lado a lado com ele e juntos haviam conseguido salvar seus homens da prisão e que depois de algum tempo, Ryan e seus homens retomaram o castelo. Só se essa mulher fosse lady Dafhne, afinal não sabia manejar nada além seus instrumentos químicos, quanto mais uma espada. E se essa mulher fosse mesmo Dafhne estaria ela alterando o rumo das coisas? Dafhne encontrava-se desaparecida e naquele meio tempo tudo poderia acontecer.
           - Lady Dafhne, Bryan a levará até sua cela espero ter tempo de ir encontrá-la mais tarde e retomarmos a nossa conversa.
           - Sim my lord, eu lhe agradeço pelo passeio.
           - Você o mereceu. Venceu a aposta, não venceu? Eu sempre cumpro minhas promessas. Mais tarde combinaremos outros passeios. Tenha um bom dia.
           Ao olhar em volta de sua cela, Gabriela notou que algumas mudanças haviam sido feitas em sua ausência. Vestidos de várias cores e modelos, assim como um par de sapatilhas já um pouco gastas haviam sido colocadas em sua cama. Aproximando-se para observar melhor as roupas ela reparou que também havia alguns objetos de formas estranhas junto ao seu travesseiro. Identificou-os como sendo um jogo de pinturas medieval, um batom com gosto e cheiro de frutas maduras e um frasco contendo um pouco mais da metade de um perfume até então desconhecido para ela, mas de uma fragrância inebriante e suave que Gabriela logo passou em seu pescoço.
        - Deve ser uma maneira gentil que esse povo encontrou de dizer obrigado por eu ter ajudado o pequeno Derek. Ainda bem que me trouxeram esses presentes, eu já na suportava mais usar o mesmo vestido todos os dias após me lavar. Tomarei outro banho com a água limpa que colocaram na tina e vestirei, finalmente, algo mais leve e fresco. O Tempo está muito quente. Espere Ryan até ver como sua lady Dafhne pode ficar atraente em roupas limpas. O que estou pensando? Esqueça Gabriela! Isso não pode acontecer. Aliás, nada disso era para estar acontecendo...







quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Romance: Além dos Séculos

Capítulo I



                Glenroe Forest, Escócia, l745.

                Abriu os olhos devagar, uma sensação de náusea a fez desequilibrar por alguns instantes. Era noite clara, havia muitas árvores ao seu redor... Um tiro rompeu o silêncio da noite explodindo num clarão de luz. Gabriela sorriu satisfeita não acreditando que realmente estava ali, no mesmo lugar de antes sendo que mais de duzentos anos atrás. O que Pedro, seu irmão estaria pensando?  Correra um grande risco ao desafiar as leis da física com aquela idéia maluca de máquina do tempo. Mas precisava tentar, afinal só assim teria a chance de recuperar o manuscrito e provar a inocência de sua família, livrando-os da morte.
              Galopes e o som de metais cortando galhos para abrir caminho chamaram-lhe a atenção, parecia um grupo grande que se aproximava rapidamente. Gabriela se escondeu atrás de uma árvore grande, mas não fora rápida o suficiente. Em poucos instantes Gabriela se viu rendida por um homem enorme de cabelo e barba ruiva e imensos olhos verdes que a segurava firmemente com uma espada rente a sua garganta.
                -Peguei Ryan! Veja só se não é ninguém menos que lady Dafhne de Le  Monde. Tão fácil, pena que minha espada não sentiu o sabor da batalha...
                Ryan olhou para a garota  estranhou sua vestimenta. Parecia um anjo pálido ali no meio da mata.
                - Cuide dela Frank, amarre-a e coloque também a mordaça para que ela não grite alertando os guardas. Pretendíamos invadir o castelo caso necessário, mas sabíamos do seu gosto por fugas noturnas, pena não termos pensado nisso antes.
                Gabriela olhou para o seu raptor e arregalou os olhos tamanho seu espanto. Estava diante do mesmo homem cujo rosto vira centenas de vezes nos livros históricos.
                 -Ryan Lancarster, eu não imaginava encontrá-lo tão cedo.
                 -Encontrar-me? Perguntou, estreitando os olhos desconfiado. Como assim encontrar-me? Não sabe o que a espera? Frank, siga a garota de perto e rápido, sigamos em frente  antes que os guardas  nos alcancem. Sabe garota, quando vi a flecha em chamas cortar o céu, soube que a sorte estava do nosso lado. Logo teremos novamente o controle sobre o castelo e não precisaremos mais viver escondidos como ratos nas montanhas.
                 -O que a espera? Pensou Gabriela, Lady Dafhne foi sua antepassada e sabia um pouco de sua história, mas não se lembrava de ter lido sobre nenhum seqüestro ou que Lord Ryan fosse um bárbaro no tratamento com as mulheres. Quanto à sorte, esta estava do lado dela que ao ser confundida com lady Dafhne teve diante de si a oportunidade de recuperar o manuscrito e retornar o quanto antes ao seu tempo.
                -Esperem homens! Gritou lord Ryan. Ouçam, parecem cavalos. Rápido, temos de alcançar o vale além daquela montanha, só então estaremos seguros.
                 Gabriela sentia o suor escorrer por suas costas. Como imaginar que há mais de duzentos anos atrás o calor estaria insuportável, enquanto que no seu tempo o frescor dos primeiros dias de inverno... Dias! Era dia quando entrara na máquina e noite quando completou o percurso, não poderia esquecer de contar isso para Pedro, essa passagem extra das horas deveria ter algum significado na ruptura temporal.
                  -Algo estava errado. Pensou Ryan. Já era tempo para que algum guarda houvesse aparecido para resgatar a pequena Lady. Aliás, de pequena não tinha nada. E aquelas roupas então? Estranhas demais para qualquer mulher, com aquele pedaço de pano apertando o corpo com aqueles cadarços a mostrar-lhe as formas, fazendo qualquer homem perder a cabeça. Diabos! Mas o que estava pensando? Tais pensamentos não poderiam ser dele. Logo ele que bastava um olhar para ter a mulher que desejasse. Não seria uma garota vestida de roupas de boneca que iria fazê-lo perder a cabeça. Ainda mais filha de um usurpador. Fora fácil demais, fácil para ela ser realmente quem dizia... Mas... ela não disse.
             -Esperem! Disse Ryan galopando até Gabriela. Quem é você mulher? Diga logo antes que eu lhe arranque as entranhas! Gritou retirando-lhe a mordaça.
              Apesar do medo diante de tal fúria inesperada Gabriela não seria descoberta ainda, não antes de por a mão em seu precioso manuscrito, precisava saber se tais afirmações contidas nele eram verdadeiras ou se realmente aquele que sua família protegera por tentos anos era falso e estaria perdido ou pior, em mãos perigosas. Seus dois primos haviam sido presos por tentar recuperá-lo, por infelicidade dois ladrões roubavam o mesmo museu e mataram o vigia e três policiais que foram acionados para prendê-los. Os ladrões escaparam com o manuscrito e seus primos levaram a culpa tanto pelo roubo, quanto pelo assassinato.
         - Vamos mulher, responda!
         -Quem mais eu poderia ser senão Lady Dafhne de Le Monde?
         - Se é realmente quem diz, mostre a marca de nascença, todos sabemos que somente Lord Mcdonald de Le Monde e sua filha Dafhne a possuem.
         Sem se abater e fingindo uma calma aparente, ainda com os pulsos amarrados, Gabriela abriu os primeiros botões de sua blusa, mostrando-lhe, Próximo ao seio esquerdo, a marca que seus antepassados possuíam. Por um minuto que lhe parecera uma eternidade, todos ficaram olhando espantados para ela, até que Ryan num gesto brusco juntou os botões escondendo a marca.
          - Mas o que pensa que está fazendo sua louca? Então não vê que está diante de homens de verdade e que há muitas noites não tocamos em uma mulher? Por acaso pensa que assim conseguirá escapar em troca de certos favores?
          - Seu grosso, eu apenas atendi ao seu pedido, Não era o que queria ver?
          - Seu demônio em cara de anjo, não pense que irá ludibriar a mim ou aos meus homens, tente e sofrerá as conseqüências! Gritou ainda com Gabriela presa junto ao corpo e sentindo sua pele arder de desejo pela proximidade daquela garota. Num impulso jogou-a para longe de si, se preocupar com o fato dela estar amarrada em cima de um cavalo e esbravejando retomou seu posto a frente de seus homens.
          - Não fique tão assustada, menina. Disse Frank ajudando Gabriela a se ajeitar na montaria. No fundo ele não é tão mau. Aliás, é o homem mais justo que conheço.
           Gabriela percebeu que todos os outros homens, cerca de vinte, olhavam para ela desconfiados;  mas foi um outro bem moreno que mais a assustou. Ele a olhava com cobiça e ao vê-lo passar a língua nos lábios enquanto olhava para ela como se fosse um pedaço de carne, Gabriela sentiu um tremor sacudir-lhe o corpo. Teria muito cuidado com ele.
           - Sinceramente Ryan, não vi motivos para tudo aquilo. O que afinal deu em você homem de deus para tratar a garota daquele jeito?
           - A louca simplesmente ia se despir na frente de todos, caso eu não interviesse. O que fiz foi para o próprio bem e segurança dela. E Deus sabe que eu mataria qualquer um de meus próprios homens se tentassem algo contra ela. Não somos bárbaros, Frank!
Não violentamos mulheres, principalmente uma que nos renderá nossos homens de volta.
           Frank coçou a barba pensando nas palavras de seu comandante e com um meio sorriso nos lábios voltou para perto da garota. È, fazia sentido.

        Após cavalgarem cerca de quatro horas, chegaram à clareira depois da montanha e  Ryan ordenou que desmontassem, pois pernoitariam ali. Já era muito tarde, Gabriela calculou umas três horas da manhã e sentindo todo seu corpo doer e seus pulsos em brasa, foi com alívio que se viu levada até um canto próximo a alguns arbustos.
       -Retirem a mordaça e desamarrem a garota, mais fiquem atentos; a fama de lady Dafhne é grande e não queremos que ela fuja agora que estamos seguros. 
       - Há um pequeno lago atrás desses arbustos my lady, pode se refrescar lá, mas não vá muito longe.
        Gabriela olhou-o agradecida e caminhou lentamente em direção ao lago. Retirou toda a roupa, deixou em cima de uma pedra e mergulhou. Banhou-se e já se preparava para sair da água quando sentiu um dor enorme junto ao tornozelo. Com um grito e sentindo muita dor, deixou-se afundar novamente no lago.
        Ryan não conseguia dormir, trocou de lugar com o homem que vigiava lady Dafhne e ficou a pensar nos acontecimentos das últimas horas. Não devia ter perdido o controle momentos atrás, afinal aquela garota não significava absolutamente nada para ele. Estava pensando em pedir-lhe desculpas quando um grito fraco, quase um gemido chamou-lhe a atenção. Correu até o lago e vendo que a garota afundava parecendo inconsciente, pulou n’água, amaldiçoando-a caso estivesse tentando enganá-lo para tentar fugir. Ao chegar perto da garota Ryan viu o filete de sangue que saía do tornozelo dela e reconhecendo a picada de cobra, retirou-a sem esforço da água.
       -Por Deus, ela está nua! Que o inferno a leve por ter sido tão imprudente ao nadar para tão longe, quando o mais seguro era apenas refrescar-se junto à margem.
       Ryan deitou-a sobre a grama macia e sentiu a pele da garota queimar-lhe as mãos. Febre! Com certeza foi picada por alguma cobra venenosa. Pensou Ryan já cortando o local da picada com um pequeno punhal que sempre carregava consigo e sugando o veneno através do corte. Vendo que a garota começava a ter tremores, Ryan retirou toda roupa molhada e não vendo outra solução, abraço aquele corpo macio e febril a fim de conter a febre. Sabia ser normal aquele tremor devido ao veneno que se instava rápido pelo corpo de quem era picado e ao ser removido, algumas pessoas reagiam assim, principalmente se estivesse fraca com o estômago vazio. Mas que droga! Só mesmo uma louca sairia do castelo àquela hora da noite sem ter se alimentado. Mulheres!  Sim, era  uma mulher que tinha diante de si, bem ali colado ao seu próprio corpo também nu. A febre da garota logo passaria, precisava conter sua própria febre antes que cometesse alguma loucura. Tentou se concentrar e relaxando um pouco o abraço, ficou ali duelando com seus instintos animais.
          Que sonho bom. Pensou Gabriela, se aconchegando ainda mais àquele corpo quente que a protegia. Quem seria ele? Quisera Deus permitir-lhe sonhar todas as noites algo assim tão real.
          Ryan sentindo aquelas carícias femininas em seu corpo, retesou-se por alguns minutos. Mas o que estaria se passando pela cabeça daquela feiticeira de pele macia? Já não bastava o tormento o qual estava passando?
         Se esfregando junto aquele corpo musculoso e sensual, Gabriela ainda sonolenta passou os lábios pelos mamilos do homem que a abraçava com força.
         Ryan ao sentir um toque molhado em seu peito não resistiu, com um gemido abafado e contido capturou a boca daquela feiticeira num beijo selvagem. Se era uma noite de prazer que ela queria, era justamente o que estava determinado a proporcionar-lhe.   Tendo uma mão presa a um dos seios de Gabriela, passou a acariciar-lhe as curvas do corpo, descendo cada vez mais até encontrar seu ponto mais íntimo. Com movimentos circulares passou a aprofundar seus dedos aos poucos naquela carne quente e úmida.   Beijava-a com volúpia e sem parar de acariciá-la começou a murmurar-lhe palavras doces ao ouvido.
          Aquilo estava real demais. Gabriela abriu os olhos e num ato de desespero empurrou com toda força aquele cujos carinhos ainda queimavam-lhe a pele.
          -Saia de cima de mim, seu cretino! Solte-me ou gritarei tão alto que todos estarão aqui num segundo!
          - Mesmo? Minha bela indomada? Por quem me toma, sua feiticeira... Acha mesmo que pode brincar comigo desse jeito e parar assim? Não, você terá o que pediu!
          - Está louco? Eu não pedi coisa alguma!
          - Chega de truques sua diabinha de pele macia, você não me engana. E com um beijo ardente reiniciou os carinhos, fazendo Gabriela gemer de prazer. Sim, ela seria sua, amanhã pensaria nas conseqüências de seus atos. Agora estava mais interessado naquela feiticeira de corpo sedutor.
          Gabriela não sabia o que fazer, pois seu corpo não resistia àqueles beijos ou àquele toque gentil e abrasador. Tentou mover-se para longe, porém Ryan trouxe-a ainda mais para junto de si. Nunca sentira algo assim. Mesmo virgem achava que sabia tudo sobre o sexo e julgava-se uma mulher moderna aos vinte e dois anos, só mantivera-se virgem até então, pois jamais se envolvera com alguém de forma tão profunda. Porém aquela loucura não poderia concretizar-se; Ryan estava na condição de seu inimigo, já que seus antepassados lutavam em lados opostos. Tateando o chão, Gabriela encontrou algo maciço e mesmo sabendo que não deveria, bateu com toda sua força uma pedra na cabeça de Ryan.
              -Sua bruxa! Você planejou tudo muito bem, não foi? Tentaria me iludir para depois fugir, não é mesmo? Pena que tenho a cabeça dura e ainda que o corte tenta sido profundo, irei sobreviver. Quanto a você sua cadela arisca, receberá o que merece... Agora vista-se ou a levarei do jeito que está até o seu canto frio. È, ele será frio, assim como a sua prisão.
              Gabriela vestiu-se rapidamente e com um puxão bruto em um dos braços, foi levada e jogada junto à fogueira.
              - Você! Fique de olho nessa mulher!
              Um homem alto e muito magro concordou com a cabeça e pegando um pedaço de carne na fogueira e um copo de vinho aproximou-se de Gabriela.
              - Tome, é bom que esteja bem alimentada para seguir viagem amanhã. Seguiremos logo ao amanhecer e será uma viagem de dois dias e, com um pouco de sorte, mais uma noite.  O vento não sopra em direção nenhuma, por isso foi possível ascender uma fogueira. Se não fosse assim, teríamos apenas o vinho e um pedaço de pão.
              - Obrigada. É bom saber que alguns de vocês têm bom coração. Acho que se dependesse do chefe de vocês eu ficaria no pão e água.
              - Morda a língua garota ou eu posso acatar a sua sugestão. Disse Ryan entre os dentes, enquanto limpava o sangue que ainda escorria em sua testa. Não pense que serei o único a sentir dor. Em breve o inchaço em seu tornozelo irá piorar e a sua dor talvez seja mais insuportável do que a minha. Só não conte com a minha ajuda, pois você terá de se virar sozinha.
                - Eu prefiro morrer a pedir sua ajuda!
              - Veremos. E com um meio sorriso de que sabia o que estava falando, pegou um pedaço de carne e foi sentar bem longe de Gabriela, porém seus olhos de águia acompanhavam cada gesto seu.
              - Droga! Está dando tudo errado. Sussurrou baixinho. Eu deveria estar conquistando a confiança dele e não o seu ódio. Como poderei saber algo sobre o manuscrito se não consigo nem ao menos ter uma conversa civilizada com ele?
              - Disse alguma coisa lady Dafhne? Perguntou o seu vigia.  
              - oh, não. É que realmente estou sentindo um formigamento no local da picada.
              - Hum... Você viu que tipo de cobra era?
              - Não. Foi enquanto eu me banhava no lago. Ela estava embaixo d’ água quando me picou. Mas senti seus dentes afiados a cortar-me a pele. Eles eram enormes.
              - É... , a julgar pelo espaço entre as perfurações é provável que tenha sido uma cascavel.
              - Cascavel? Mas essa cobra é perigosa, não é?
              - Sim, mas veja? O nosso comandante cortou no local e com certeza sugou o veneno. Não se preocupe que você já não corre perigo, graças ao Lord Ryan.
              - É. Graças a seu lord.


              Mal o dia amanhecera e Gabriela foi acordada por um leve pontapé em suas pernas. Lord Ryan a olhava com cara de poucos amigos. Tinha um galo na testa e o olho esquerdo inchado, levemente arroxeado. Com certeza estava sentindo muita dor de cabeça, já que flexionava o local com uma indisfarçável irritação.
              - Como vai a cabeça, my lord?
              Sem responder, emitiu um som que seria facilmente confundido com um grunhido e já montando em seu cavalo, replicou:
              - É bom não brincar com a sorte my lady. Não é toda hora que um homem está disposto a aceitar certas gentilezas  de alguém que não aprecia retribuí-las.
              - Eu gostaria que me perdoasse...
              - Arrependida por ter me batido com a pedra ou será por eu ter parado com minhas carícias my lady...
              - Ora, vejo que é impossível conversar com você! Olhe, eu só quis lhe agradecer por ter me salvo a minha vida ontem à noite. Se my lord não houvesse sugado todo o veneno, eu poderia estar morta agora.
              - E de que me valeria um prisioneiro morto? Morta não haveria troca. E retirar meus homens daquela masmorra imunda é tudo o que mais quero no momento. Ou realmente pensou que eu me importaria com alguém que vende o próprio corpo de forma tão desonrosa, como você tentou fazer ontem à noite para tentar fugir. Segui apenas meus instintos de homem, além do mais não precisa me agradecer. Fui bem pago pela boa ação que lhe conferi. Mas não me esquecerei da pedrada e pode esperar que no momento certo eu a farei pagar por isso.
             - Você não passa de um tirano lord Ryan, um tirano egoísta e frio.
             - Você está enganada my lady, tirano é o seu pai que massacra o povo a fim de multiplicar um ouro que não lhe pertence. Eu sou um homem quente e já provei o quanto isso é verdade ontem à noite. Frank vá em frente e verifique se não há nenhuma emboscada. Cortaremos caminho pelo rio. Isso apagará nossas pegadas e não corremos riscos de alguém descobrir o nosso vale.
             Imbecil, então acreditava que fora tudo um plano de fuga que não dera certo... Como ele se atrevia a pensar que seria capaz de usar o próprio corpo para fugir? Que o inferno o levasse. Iria provar-lhe que era digna e não uma prostituta. Odiando-se por ter sido tão fraca a ponto de permitir tanta intimidade, Gabriela jurou não sucumbir-se novamente aquele homem. Ele que não tentasse outra gracinha...

           - Tome, beba um gole de água my lady. Disse-lhe Marc, o mesmo homem magro e alto que havia sido seu vigia na noite anterior. O calor está insuportável e não sei como está agüentando essas roupas quentes num dia de sol forte como esse.
            - Não se preocupe comigo Marc. Assim que pararmos para descansar, pretendo retirar essa blusa de mangas.
            - Eu sinceramente nunca vi roupas mais esquisitas my lady. Sua dama de costuras tem um gosto bem diferente.
                Rindo da sinceridade do rapaz, Gabriela não lhe contou que aquele modelito além de só ser inventado dali a uns cinqüenta anos, também estava na última moda cento e setenta anos depois. Na verdade roupas daquele estilo sempre iam e voltavam no mundo da moda, mas isso pareceria loucura aos ouvidos daquele pobre homem.
         - Diga-me Marc, a quanto tempo vocês estão se escondendo nas montanhas?
         -Ora my lady! Que pergunta mais descabida... Então não sabe que estamos vivendo como fugitivos desde que seu pai tomou posse do castelo há dois anos?
             Olha, por favor não tente me enganar e tirar informações de mim. Eu não sou um homem mau, porém saberei ser caso coloque o meu povo em risco. Nós já pagamos um preço alto demais por ter ido contra as ordens do rei. Lord Ryan tomou a decisão correta a não concordar com os termos impostos pelo rei. No inverno passado Luís XV planejara invadir a Inglaterra. Mas a esquadra fora acolhida por uma tempestade e a idéia de invasão abandonada. Todavia, tornara-se óbvio, desde então, que o rei apoiaria o príncipe porque desejava ver no trono inglês um monarca que dependesse da França. Como era claro que Charles se valeria do apoio dele para retomar o lugar que era seu por direito. My lord foi sábio não aceitado tal decisão, queremos paz, nem que para isso venha primeiro a guerra.
           -Eu sei que muitos se debateram e dissecaram as intenções do rei Luís, discutindo o apoio a ser dados aos Jacobitas e ao príncipe Charles. Houve um consenso geral na Escócia de sustentar incondicionalmente o jovem príncipe, acreditando que à glória que ele conquistaria com seus feitos e armas, se somaria a glória de um governo bem conduzido.
         - Eu nunca conheci uma mulher que falasse tão bem quanto a senhorita my lady, mas sugiro que não comente muitos assuntos de política em nosso vale. Lá muitos, se não todos não concordariam com a senhorita. Para sua própria segurança é melhor que apenas ouça.
       - Para minha própria segurança... Já estou cansada de ouvir isso. E saiba que sei mais sobre os fracassos do príncipe Charles em suas batalhas do que você Marc. E não se preocupe, vocês reconquistarão o castelo e por muitos e muitos anos serão aclamados como heróis devido aos sacrifícios que fizeram em sua época...
        - O sol queimou-lhe os miolos sua louca? Gritou Ryan próximo aos dois. Você fala como se tudo o que estamos vivendo fosse passado. Ou será mesmo uma bruxa que com seus feitiços conseguiu ver o futuro? Se for, é bom que esteja certa em suas previsões. Espero que não tarde o dia em que verei tudo isso acontecer.
         Ainda com a cara fechada, aproximou-se de Gabriela e sem uma única palavra, abaixou-se e pegou no tornozelo ferido. Após observá-lo por alguns instantes deu meia volta e retornou para o lugar onde estava antes. Gabriela sabia que merecia tal tratamento depois do fizera, porém não se arrependia. Sabia que não poderia haver nada entre os dois, fosse ela Dafhne ou mesmo sendo Gabriela, Ryan era inimigo das duas.
       -É, parece que my lord não gosta mesmo da senhorita. Talvez seja melhor manter-se longe dele Lady Dafhne. My lady tem o poder de irritá-lo facilmente, coisa rara para uma mulher, afinal elas costumam agradá-lo e não duelar com as palavras o tempo todo.
      - Eu não duelei com ninguém, Marc.
      - Dessa vez não, mas eu tenho reparado no modo que vocês dois se falam. Há uma tempestade muito forte que rodeia os dois.
      - Tempestade?
      - Trovões, my lady, trovões! Disse rindo abertamente.
      - Trovões! Pois sim!  Então diga ao seu comandante que fique bem longe de mim, pois caso contrário, soltarei raios e trovões em cima dele, Marc!  
          - Impossível my lady. Saiba que o nosso lord Ryan não aceita ordens de ninguém, isso só o tornaria ainda mais raivoso e ninguém do nosso clã ousaria tanto. A fúria de my lord é pior que mil trovões!
          Mil trovões, não é? Pensou Gabriela. Já era hora de por um ponto final naquela birra. Não tinha medo de cara amarrada e não começaria a ter agora. Decidida, Gabriela forçou a marcha de seu cavalo e emparelhou-o ao de Ryan.
        - Novalgina.
        - Como?
        - Novalgina. Ou então outro analgésico qualquer. Sua dor de cabeça.... Tomo logo e acabe com essa cara amarrada. Ninguém gosta de sentir dor.
        - Então conhece as artes da cura? Também é uma curandeira além de bruxa?  
        - Bruxa! Pois que fique com sua dor de cabeça, seu grosso.
        - Espere! Disse Ryan segundo no pulso de Gabriela. Diga qual erva é essa novalgina e pedirei a alguém para procurá-la.
        Gabriela havia se esquecido ainda não existiam comprimidos naquela época. Sorte que conhecia e cultivava muitas plantas no quintal de sua casa, inclusive novalgina, vick e outras tantas. Explicando detalhadamente como era a folha da planta, Gabriela constatou ter ganhado alguns pontos na tentativa que fizera para ganhar a confiança de Ryan. Que por sua vez, após ouvi-la com atenção, lembrou-se ter visto tal erva a uns metros atrás e foi pessoalmente buscá-lo. Retornou pouco tempo depois e todos pararam por alguns instantes para que Gabriela fizesse um chá de novalgina para Ryan. Assim os outros poderiam aproveitar para dar água aos cavalos e descansar.
        Ryan bebeu todo o chá feito por Gabriela e fechou os olhos. Não tinha o gosto muito bom, mas era melhor que muita coisa que já havia bebido. Sentiu a dor ir aliviando aos poucos e agradecido, sorriu para Gabriela.
        - Creio, lady Dafhne, que lhe devo um obrigado. A dor que antes estava quase insuportável, já está bem melhor.
        - Que bom, fico feliz em saber.
        - Sabe você me intriga. Deveria estar satisfeita com a minha dor. Afinal eu te raptei e era de se esperar que quisesse fugir. Ou ficou com medo da minha vingança?
        - Pretendia mesmo se vingar, Ryan?
        - Não lhe ensinaram que não se deve usar o primeiro nome? É vulgar. Uma lady jamais falaria assim.
        - Talvez tenha razão. Talvez eu não seja uma lady de verdade.
        - Mesmo assim continua sendo a filha de um usurpador. É tão mimada que se acha no direito de falar de igual para igual como se fosse um homem.
        - Vejo que a dor já passou, Lord Ryan. Acho que é melhor voltar para perto de Marc.
        - Nada de gracinhas com meus homens my lady. Qualquer um deles pode pegar aquilo que você tem pra dar e não será uma pedrada que irá detê-los.
        - Ora, como não se foi justamente uma pedrada que deteve você, my lord!
        - Se fosse mais inteligente saberia que apesar da dor nada me deteria naquele momento a não ser eu mesmo. Eu simplesmente não a quis. Eu a descartei assim que percebi o seu joguinho.
        - Joguinho? Eu estava dormindo...
        - Dormindo? Se aquilo é dormir, imagino o que não fará acordada my lady...
        - Seu...
        - Basta! Vejam homens, finalmente chegamos ao nosso vale. Bem vinda ao seu novo lar, my lady…Espero que aprecie o cárcere.
        -Cárcere? Onde pensa em me manter, my lord?
        - Eu disse que me vingaria. Vamos homens, nossas mulheres nos aguardam!
        Mulheres? Ryan tinha uma mulher? Isso não fora citado nos livros que lera. Droga! Isso não estava nos planos. Como poderia pegar o manuscrito de Ryan, com uma mulher por perto a vigiar-lhe os passos. Com certeza mulher alguma a deixaria chegar perto de seu homem.
           Mulheres! Era disso que ele estava precisando. Procuraria Lola, ela sim era uma mulher que sabia como fazer um homem dormir sossegado depois de uma noite inteira de prazer. Lola. Linda e cheia de carinhos. Não precisava de nada mais para aliviar a tensão que formara entre suas entranhas desde o maldito momento que retirara lady Dafhne do lago. Pois deveria tê-la deixado lá, agonizando de dor ao invés de ter salvado aquela bruxa de pele macia.
           Frank, que se mantivera calado diante de todo percurso, deu um grito de alegria e saltando de seu cavalo abraçou e levantou no ar uma bela mulher de uns vinte e poucos anos, que correra ao encontro dele assim que avistaram as primeiras casas do vale. 
           Outros homens também abraçaram suas famílias e foi com tristeza que Gabriela viu Ryan beijar uma bela ruiva na boca, com um prazer evidente, o que fez com que Gabriela virasse o rosto e não visse o susto da ruiva e o sorriso vitorioso que esta lançou para todos os demais.
           - Levem a prisioneira para a cela comum e após darem de beber e comer tranquem-na lá.
          - My lord, não vejo necessidade de prendê-la na cela comum. Ela é nossa prisioneira, mas também é uma mulher. Ela pode ficar em minha casa, eu e Marcy cuidamos dela e...
         - Não! Ela irá para a cela comum. Está decidido, Frank, ela já tentou fugir na noite em que a pegamos. Eu não vou arriscar perder todo esse tempo à toa caso ela fuja daqui.
         - Mas Ryan, lá é frio e imundo!
         - E não é num lugar frio e imundo que alguns de nossos melhores homens estão confinados há dias? Ou será que uma masmorra repleta de ratos é melhor que um quarto com grades nas janelas? Não! Ela é nossa prisioneira e será tratada como tal. Agradeça aos céus por não receber o mesmo tratamento que os nossos pobres amigos ou teríamos de espancá-la e deixá-la passar fome.
        - Está certo! Mas eu mesmo irei verificar se ela está sendo bem tratada Ryan. Do jeito que você anda, eu não duvidaria nada se você viesse a espancá-la.
        - Eu já lhe disse uma vez que não permito crueldade no meu clã, Frank. De onde tirou essa idéia?
        - Desculpe–me, acho que essa história toda está afetando os meus miolos. 
        - Certo amigo, só não permita que uma mulher se coloque entre nós.
        - A única mulher que irá se colocar entre vocês my lord, serei eu. Disse Marcy, sorridente. Venha meu touro, eu tenho uma surpresinha te esperando em nossa casa.
        - Ryan, estarei em casa caso precise de mim.
        - Mais tarde, bem mais tarde benzinho.
        Ryan abraçou Lola e rindo ao receber os beijos da mulher, entrou em uma casa enorme enquanto Gabriela era levada para trás de um muro alto, onde logo após avistou uma casa branca e cheia de grade. Pelo menos não era um calabouço, pensou.

        





 Romance em andamento...Aguarde o Capítulo II.

Alexandra Leal