Capítulo II
Sentada num banquinho de madeira e com o olhar perdido; fora assim que Ryan a encontrou no dia seguinte. Após uma longa noite de delírio sentia-se em pleno domínio sobre seu corpo, mas não gostou da imagem que viu ao deparar-se com a mulher que havia infernizado dois dias de sua vida. Isso sem contar a noite, cujos momentos teimavam a vir em seus pensamentos por mais que tentasse esquecê-los.
Gabriela olhava para fora da janela pelas grades de sua prisão. Não saberia dizer o tempo que estivera ali, tanta coisa lhe havia acontecido em tão pouco tempo... Tempo! Precisava encontrar a pedra solta por trás da rocha dentro da caverna. Ela havia combinado com Pedro, seu irmão, de manter contato através de mensagens escondidas debaixo dessa pedra. Eles dois havia pesquisado juntos e concluíram que aquela pedra estivera ali por mais anos do que o necessário para ser considerada o refúgio perfeito de suas comunicações. Ela esconderia a mensagem debaixo da pedra a cada cinco dias e Pedro a pegaria, sendo quase trezentos anos depois. O mesmo faria Pedro e ela estava ansiosa por já encontrar alguma notícia sobre o que estava acontecendo em sua época, pois não tinha certeza se algum fato da história no futuro, fora alterado com a sua chegada no passado. Sentindo o corpo dolorido pelas longas horas de cavalgada e pela noite mal dormida. Ficara acordada quase a noite toda imaginando Ryan nos braços de Lola. Sabia que era pelo fato de ter lido muito a respeito dele e por admirá-lo por sua bravura, beleza e coragem. Era incrível poder vivenciar toda a história de seus antepassados e inimigos pessoalmente.
- Pensando num meio de fuga my lady?
- Não, na verdade pensava em você. Respondeu sem pensar diante do susto que levara.
- Em mim? O que você estava pensando Dafhne?
- Dafhne? Não foi você mesmo que disse não ser correto chamar alguém pelo primeiro nome uma vez que não há intimidade para tal?
- Touchè! Se bem que se for por intimidade acho que já usufruímos o suficiente dela para chamá-la de Dafhne, não concorda? Mas me diga o que pensava?
- Pensava que estamos sendo ambos tolos por duelarmos assim um com o outro o tempo todo. E chega de falar o tempo todo naquela maldita noite!
- Maldita?! Disse Ryan aproximando-se ainda mais e segurando os braços de Gabriela com força trazendo-a para junto de si. Ora minha gata arisca, imagino o quanto possa ser selvagem ao se entregar com paixão. E sem perder tempo apossou dos lábios entreabertos de Gabriela, que espantada com tal reação, permitiu-se beijar com ardor, rodeando os braços ao redor do pescoço de Ryan.
Por Deus! Parecia estar no céu. Gabriela não estava preparada para as emoções que estava sentindo. Um buraco se formara na boca de seu estômago e um calor começava a subir-lhe pelas entranhas. Ryan deslizava as mãos com dedos hábeis por todo o seu corpo, detendo uma das mãos em um de seus mamilos flexionando-o levemente com uma sensualidade que fez Gabriela estremecer dos pés a cabeça.
Sentindo Gabriela render-se aos seus carinhos, Ryan aprofundou o beijo apertando-a ainda mais contra o seu corpo, permitindo que ela sentisse todo o seu desejo. Estavam numa cela, ninguém os interromperia... Com um sorriso maléfico nos lábios, Ryan jogou Gabriela sobre a cama fria da cela e por alguns segundos ficou olhando para a mulher que antes beijara com ardor.
- Isso é só uma prova feiticeira, de que você não é a única que sabe fazer alguém perder a cabeça. Eu lhe disse que me vingaria. Isso é só o começo, quando eu quiser ir até o fim pode ter certeza de que irei e ninguém virá te socorrer. Até lá fique com as migalhas dos meus beijos, eu já me saciei de sexo ontem à noite, mas é bom saber que posso ter um pouco mais com você quando me convier...
- Nunca! Eu prefiro a morte!
- É mesmo?! Pois não foi o que me pareceu minutos atrás. Zombou saindo da cela e deixando Gabriela amaldiçoando-se por tamanho desatino.
- Urrrgh! Até quando meu Deus terei de agüentar esse homem idiota!
- My lady, a senhorita gostaria de um pouco de café agora? My Lord veio ver se estava com fome, mas saiu sem uma única palavra.
- Sim, obrigada Marcy. Gostaria de poder dar uma volta lá fora. O dia está quente e aqui dentro é abafado demais.
- Não creio que my lord consinta lady Dafhne. Afinal como ele mesmo disse, a senhorita é uma prisioneira. Mas verei isso mais tarde quando ele estiver mais... calmo.
- Você poderia vir comigo. Notei haver um rio depois daquela colina, próximo a uma árvore frondosa.
- Você quer ir até a cachoeira, mas como você sabe da existência dela ou de tal árvore se você nunca esteve lá antes?
- Cachoeira? Não, eu gostaria de ficar um pouco sozinha na caverna. Eu... ouvi, é isso, eu ouvi alguns homens conversando enquanto vínhamos para o vale sobre uma caverna que...
- Não há nenhuma caverna my lady. Respondeu sorrindo amigavelmente. Eles provavelmente estavam querendo impressioná-la contando histórias sobre cavernas e animais ferozes. Apesar das caras feias todos têm um bom coração, inclusive my lord.
- Diga-me Marcy, Ryan e Lola são casados?
- Casados? Pelos céus! Não! Lola é uma desgarrada que escolheu my lord para seu homem. Lord Ryan aceita os agrados dela que por ser viúva e sem filhos acha que pode viver como bem entende. My lord tem um amor secreto sim, mas isso ninguém comenta.
- Amor secreto? Quem?
- Eu já disse que isso ninguém comenta. Foi há muito tempo quando ele ainda era um menino. Depois disso ele ficou apenas com um desenho dela.
- Desenho?
- É, lord Ryan é um excelente desenhista e já naquela época conseguiu desenhá-la com perfeição. O desenho foi tudo que lhe restou. Depois a família dela foi para longe e quando retornaram as coisas haviam mudado e my lord não pôde sequer vê-la novamente. Marcy a olhava com estranha atenção enquanto falava e parecia não compreender algo após ter terminado o relato sobre a vida de Ryan. Parece que tudo mudou mesmo, não é?
- É, afinal antes Ryan era o senhor do castelo e hoje um fugitivo.
- E o fato de sermos todos fugitivos faz com que sejamos diferentes do que sempre fomos my lady? Podem tirar nossas casa e terras de nós, mas não podem tirar-nos a dignidade e a nossa auto-presevação. Somos livres e temos o direto à nossa própria escolha, não queremos ser controlados como marionetes por um rei que não é nosso!
- A guerra existe, Marcy. E por mais que doa, temos que aprender a conviver com as mudanças. A ela damos o nome de progresso.
- Eu nunca ouvi tal palavra, mas não estranho vindo de você. Assim como agora compreendo por que o nosso lord Ryan anda tão severo e irritado. Pensei que my lady fosse diferente. E com cara de poucos amigos saiu da cela, deixando Gabriela pasma diante de tal reação.
- E agora, meu Deus? O que foi que fiz ou disse para causar isso?
Dois dias! Teria que achar a caverna em dois dias. A vegetação estava diferente com muitas árvores que já não existiam em seu tempo. Aliás, aquele vale era totalmente diferente do que conhecia. Não havia ainda a planície aberta onde costumavam descer com o helicóptero em suas pesquisas. Ela e Pedro não tinham como prever tais mudanças, porém sabia a exata localização da caverna devido ao rio. Bastaria seguí-lo sempre ao norte. Não conseguia entender como eles ainda não haviam descoberto a caverna, se bem que com toda aquela vegetação tapando tudo era possível e se assim fosse, isso seria um trunfo para ela, pois poderia refugiar-se lá caso precisasse. Dois dias, teria de pensar num jeito de sair dali. O manuscrito deveria estar dentro do quarto de Ryan, o tempo estava passando e até aquele momento não descobrira nada.
O Clã dos Mcdonald haviam supostamente falsificado um manuscrito a fim de favorecer seus interesses políticos ao longo dos anos. Todos os bens que a família de Gabriela possuía foram tomados com a descoberta de manuscrito tido como original após uma minuciosa pesquisa. O manuscrito fora para no Museu Municipal e na tentativa de apanhá-lo para conferir com o outro que a família de Gabriela possuía, ocorrera o assalto e seus primos foram condenados à morte pelo assassinato de três homens. Gabriela precisava saber qual dos dois manuscritos era verdadeiro e tentar salvar seus primos. Ela e Pedro acreditavam que tornando público o manuscrito original, poderiam autenticá-lo com o passar dos anos legalizando para sempre a sua condição de legítimo. Esse fato alteraria os cursos da história livrando seus primos da tentativa do roubo do manuscrito e da acusação de assassinato. Gabriela sabia também que se fosse pega no passado, ela que possivelmente seria mandada à forca, o que era costume naquela época e então além de nada poder fazer para ajudar sua família, também não existiria em sua época. Mesmo sabendo dos riscos ela estava ali e precisava manter contato com Pedro.
Capítulo III
- Acorde my lady, eu sei que já é noite, mas uma criança da vila está com febre muito alta e lord Ryan precisa dos seus conhecimentos de cura.
- Quantos anos têm a criança, Frank? O que mais ela está sentindo?
- Parece que comeu algo envenenado. Os pais tentaram vários meios para esvaziar-lhe o estômago do menino, mas só sai espuma. Ele tem seis ou sete anos.
- Eu não tenho poder de cura, apenas conheço alguma coisa sobre as plantas, pois sou bioquímica.
- Bio o quê?
- Ah, deixe para lá, meu amigo, leve-me até o menino.
O menino deveria está com quase quarenta graus de febre e Gabriela temia que ele entrasse em coma. Algo assim naquela época poderia ser fatal uma vez que não havia recursos e pelo fato de não ser médica.
- Encham aquela tina com água fria e vamos tentar abaixar a febre com um banho frio. Pena não existir gelo nessa época.
- Ainda estamos muito longe do inverno para nevar my lady. Respondeu aflita a mãe do menino.
- Pronto. Agora me tragam álcool e alguns pedaços de pano. Vamos colocá-los embebidos pelo álcool debaixo das axilas e na virilha dele, pode ser esse uísque que está em cima da mesa caso não tenham álcool, isso deverá abaixar a febre. Peguem também folhas de novalgina e façam o mesmo chá que fizeram para lord Ryan.
Mesmo espantados diante das ordens, todos obedeceram. Não demorou muito para a febre abaixar e a criança abrir os olhos.
- Diga-me garoto, o que foi que você comeu?
- Cogumelos my lady, mas foi só uma mordidinha. O Joe disse que eu não tinha coragem de comê-los e eu não quis que pensassem que eu era um covarde.
- Pois saiba que você poderia ter morrido e um herói morto nunca recebe os louros da glória. Graças a Deus por ter sido apenas uma mordida e pelo visto bem pequena, ou você não estaria aqui para nos contar a sua façanha.
- Obrigado my lady. Disse o menino meio envergonhado.
- Bem, agora todos podemos voltar para nossas casas e dormir sossegados. Malcon me acorde caso Derek volte a ter febre. Você e sua esposa podem me chamar a qualquer hora.
- Eu lhe agradeço my lord e a my lady também, por ter salvado a vida de meu filho.
- Estou feliz por ter podido ajudar.
- Vamos, eu a levarei de volta para sua cela.
- Acha mesmo necessário me manter presa lá?
- Você é minha prisioneira Dafhne, não se esqueça disso.
- Como poderia me esquecer my lord, se você me lembra disso o tempo todo.
- Agora que estamos a sós, me diga onde aprendeu que uísque serve para abaixar a febre. A novalgina também me surpreendeu. Pode então essa erva servir para aliviar a dor e também a febre?
- Na realidade não precisava ser uísque, poderia ser qualquer tipo de álcool. Quanto à segunda pergunta sim, a novalgina serve para isso e outras coisas também. Eu aprendi muitas coisas desse tipo com os mais velhos, com a própria vida e outras tantas coisas que sei aprendi estudando.
- Estudando? Então sabe ler?
- E escrever também. Sempre gostei de ler muitos livros. Sei desenhar e pintar muito bem, quando pequena costumava retratar partes do que lia nos livros através de desenhos e ficavam muito bons.
- Não pode está falando sério! Ler e escrever desde criança e ainda por cima saber desenhar, eu nunca soube desses seus dons.
- Ler e escrever não são dons Lord Ryan. Desenhar e pintar sim.
- Se de fato é tão boa quanto diz prove.
- Agora? No meio da madrugada?
- Não. Assim que amanhecer irei buscá-la com papel, pena e tinta. Nós iremos para algum lugar tranqüilo, lá você poderá desenhar, escrever e ler. Se conseguir fazer as três coisas...
- Se eu conseguir, o que acontecerá my lord?
- Concederei a você um pedido e também me desculparei por ter duvidado.
- Feito! Porém exijo que me deixe escolher o lugar.
- Como, se não conhece o vale?
- Marcy me falou de uma cachoeira, talvez uma caverna.
- Caverna? Não há cavernas por aqui my lady, mas há uma bela cachoeira. Inclusive era justamente lá que eu pretendia levá-la.
- Ótimo. Mas será que a sua Lola não irá me arrancar os olhos por isso?
- Lola? Perguntou rindo abertamente. Lola é uma excelente companhia, mas sabe qual é o seu lugar, não se preocupe.
- Na sua cama suponho.
- Na minha cama quando me convém, não vou negar. E por que deveria ser diferente já que sou homem e ela uma bela mulher?
- Você não é nem um pouco modesto Ryan.
- Ora lady Dafhne, nós dois sabemos que em matéria de prazer eu me saio muito bem, então para que ser modesto? Além do mais esse mesmo prazer que Lola tem em minha cama pode muito bem ser seu, basta querer.
- A minha resposta é não, lord Ryan.
- Minha pequena Dafhne, eu não fiz pergunta alguma e saiba que não farei caso isso venha a acontecer. Você já se mostrou bem satisfeita com meus carinhos e sei que eu a terei no momento em que eu quiser então para quê falsos pudores?
- Falsos pudores? Por quem me toma my lord?
- Não venha querer me iludir que é virgem, pois uma donzela jamais se entregaria às artes do amor do jeito que você fez comigo. Você sabia o que estava fazendo e por Deus o fez muito bem.
- Pois saiba que aquilo foi tudo o que terá de mim Ryan. Você nunca mais irá tocar em mim novamente. Está me ouvindo bem?
- Como queira minha gata enfezada. Será você que irá me tocar primeiro, você vai ver.
- Espere sentado.
- Expressão estranha... Mas não se preocupe querida, pois esperarei deitado. A não ser que você prefira esta posição quando fizermos amor. O que prova o que eu disse anteriormente. Está bem que seja do jeito que você quiser...
- Ora seu... Saia da minha frente Ryan. Saia agora!
- Sairei. Agora que já está segura em sua cela irei dormir. Amanhã te apanharei bem cedo. Não tome o seu desejum. Faremos isso juntos. Durma bem.
- Droga! Como foi difícil me controlar para não jogar algo bem pesado na cabeça daquele presunçoso. Não importa. Amanhã terei a oportunidade que eu tanto ansiava. Poderei encontrar a caverna e colocar a minha mensagem debaixo da pedra. Espero que haja alguma para mim também. Pedro já deve ter notícias se o fato de eu ter vindo para cá alterou ou não o tempo presente e o que eu terei de fazer, de acordo com os livros de história, caso os fatos tenham realmente se alterado com a minha vinda.
Após ter escrito a mensagem explicando detalhadamente tudo o que ocorreu com ela até ali, Gabriela finalmente dormiu. Sabia que o dia seguinte lhe reservaria muitas surpresas. Faria um mapa da floresta e de todo o vale, tentaria transpor para o papel cada detalhe importante tanto para poder ser rápida com as futuras mensagens, quanto para explicar para Pedro as mudanças ocorridas naquele território com o passar do século. Com certeza não havia registro sobre nada disso nos livros geográficos ou históricos. Pedro era um cientista. Era astrofísico entre outras tantas coisas. Fora capaz de construir uma ponte interdimensional, tudo bem que fora por acaso e com um grande golpe de sorte; mas após vários testes com animais de diversos tamanhos ele conseguira o que todos julgavam impossível e ela estava ali, presa numa cela e apaixonada... Não! Apaixonada não! Ela não podia estar apaixonada e não estava. Certamente era o cansaço e tudo o que estava lhe acontecendo. Afinal, não era todo dia que uma mulher se deparava com o único homem que julgara capaz de se apaixonar um dia e em pensar que a primeira vez em que olhara para a foto dele no livro de história, ela ficou por horas fantasiando como seria conhecê-lo pessoalmente. Isso ainda na adolescência, só vários anos depois recorrera àquele mesmo livro e outros mais quando Pedro pediu sua ajuda para pesquisar sobre o manuscrito e tentar provar que o manuscrito tão bem guardado por sua família ao longo dos séculos era mesmo verdadeiro e não uma fraude. Não estava apaixonada. Só envolvida pelas circunstâncias e ansiosa por resolver logo toda aquela confusão. Tinha certeza que seu coração estaria mais calmo pela manhã e que não pensaria tantas bobagens a respeito de alguém que nem existia em sua época...
- Droga! Mas ele é real agora e isso não dá para esquecer! Jamais conseguirei esquecer os seus toques e beijos Ryan. Mesmo não estando apaixonada eu jamais conseguirei tirar de minhas lembranças que um dia eu te senti de verdade junto a mim. Raios! E ainda por cima passei a esbravejar, isso seria assustador já em meu tempo aos olhos de minha mãe, quanto mais aqui numa época em que ser lady vale tanto quanto os dobrões de ouro do rei. Tenho de voltar logo ou ficarei louca...
O dia amanheceu ensolarado e quente. Ryan batia na porta de sua cela quando Gabriela abriu os olhos. Ele tinha as feições relaxadas como se houvesse dormido a noite inteira e não apenas poucas horas como ela.
- Então? Preparada para provar se desenha, lê e escreve tão bem quanto quer me fazer crer?
- Preparadíssima!
- Vamos logo que o dia está lindo lá fora e eu preparei um bom lanche e alguns frios e bolos para quando tivermos fome mais tarde.
- Passaremos o dia inteiro fora fazendo piquenique?
- Pique o quê?
- Piquenique, é o nome que se dá quando saímos para passar o dia fora e comer ao ar livre.
- Eu não sabia. Vejo que trouxe muitas novidades da Inglaterra, lady Dafhne. Aqui eu simplesmente diria que iremos passar boas horas juntos. Bem, assim espero.
- Eu também my lord. Eu também.
Cavalgaram cerca de quarenta minutos e logo Gabriela começou a reconhecer alguns trechos que percorrera com Pedro anteriormente. As mudanças não eram tantas assim afinal de contas. Reparou que no lugar da enorme clareira havia árvores gigantescas, certamente extintas no presente, pois não conhecia aquele tipo de folhagem.
- Que árvore é esta my lord? Eu não a conheço.
- É apenas uma árvore. Temos muitas delas por aqui. Não dá frutos, apenas algumas flores bem pequenas se compararmos com o tamanho do tronco ou das raízes que apesar de bem resistentes, ficam expostas o que até nos facilitaria em momentos difíceis caso viermos a precisar derrubá-las para retardarmos o inimigo diante de uma possível fuga. Seus galhos também são excelentes para uma boa fogueira, pois custam a queimar e também bons para a construção de jangadas e possivelmente também para embarcações, mas isso é só uma suposição.
Estava explicado porque aquela árvore provavelmente deveria estar mesmo extinta. Com tantas utilidades o homem de trezentos anos atrás jamais pensaria que no futuro aquela e tantas outras árvores e animais silvestres não existiriam mais privando assim a humanidade de vir a conhecê-los um dia. O que era uma pena.
- Veja lady Dafhne, a cachoeira Heart. Não é mesmo uma beleza? Nós a batizamos assim devido ao formato de coração que as águas formam durante a queda.
Gabriela não podia acreditar em seus olhos. Ela estava diante do monte Heart. O mesmo monte cujo interior era a caverna onde ela e Pedro entraram tantas vezes, dormiram e planejaram vários dos pequenos detalhes que ela não poderia esquecer durante a viagem de ida e de volta. As águas batiam estrondosamente de encontra às rochas criando um clima de magia no ar, uma vez que a impressão era de que as água viravam fumaça ou névoa a subir por entre a queda natural da própria cachoeira. Sem dúvida estava diante de algo místico o que a fizera lembrar da lenda cuja alma de um antigo cacique havia aparecido certa vez no alto do monte Heart e flutuando em meio a mesma névoa que tinha diante de si, havia salvado tanto lord Ryan quanto vários outros dos seus seguidores em uma emboscada que certamente teria massacrado a todos caso tal aparição não ocorresse. Ela se perguntava se mais alguém além dela sabia da existência da caverna por trás da cachoeira. Isso seria mais uma vantagem a favor dela.
- Não gostou? Parece que viu algo assombroso.
- E vi. É realmente linda my lord! Estou fascinada diante de tamanha beleza. Eu jamais pensei que esse monte poderia ter sido uma cachoeira um dia.
- O que disse?
- Oh, nada. Desculpe-me, vamos colocar a toalha aqui debaixo dessa árvore? A sombra dela é mesmo enorme. Vocês poderiam plantar várias delas my lorde. Já que é tão fácil de arrancá-las talvez um dia já não haja tantas por aqui.
- Plantar árvores? Ora my lady, quantas idéias estranhas sai de sua cabeça! Temos muitas coisas mais importantes do que plantar árvores. Seu blefe, por exemplo. Venha sente-se ao meu lado e me ajude com esses papéis. Se realmente sabe ler e escrever tão bem quanto diz, poderá me provar verificando se estou sendo claro em minhas palavras para que qualquer um que vier a lê-los compreenda de forma clara e simples o que escrevi e não distorça as minhas idéias por causa de palavras mal formuladas.
- O manuscrito! Meu Deus, é o manuscrito!
- Sim eu estou escrevendo à mão, mas por que o espanto? São apenas alguns esboços das minhas propriedades com dimensões exatas para quando eu retomar o que é meu e alguns relatos sobre toda a riqueza existente dentro e fora do castelo antes de seu pai tê-lo usurpado em nome do seu rei. Por que pretendo ter o que é meu de volta Dafhne. E isso nem você nem ninguém irá me impedir de conseguir. Eu e cada família que vive hoje nesse vale e sofre pelas perdas com a fuga. Teremos tudo, cada animal, cada peça de ouro, cada mísera colher de prata, tudo voltará para nossas mãos nem que eu tenha de morrer por isso.
- Eu sei Ryan. Não duvido de nada disso, só não esperava ver esse manuscrito aqui e agora. Aliás, hoje estou tendo muitas surpresas boas.
- Não vejo que motivos o simples fato de ver alguns esboços de desenhos ou algumas notas sobre animais, objetos e outras coisas possa influenciar para melhorar o seu dia, Dafhne. Você deveria ficar irritada por pensar em perder todo o conforto que usufruía enquanto estava em meu castelo. Diga-me em que quarto dormia, na torre ou na ala azul?
- No mais belo com certeza!
- Então o da ala azul. Sabia que era lá que eu dormia? Talvez você estivesse dormindo em meu quarto, em minha cama sem o saber. Isso chega a ser engraçado, sabe? Por muitas vezes eu imaginei que era lá mesmo que você dormia...
- E ficou a imaginar onde eu dormia por quê? Devia estar querendo me enforcar durante o sono ou coisa parecida?
- Coisa parecida. Mas vejo que não tira os olhos dos papéis. Tome leia-os e diga-me o que acha. Ou será que mentiu ao dizer que sabe ler?
- Dê-me o manuscrito Ryan e eu o lerei em voz alta para você. Você não imagina o quanto esperei e tudo pelo que passei para ter esse manuscrito em minhas mãos.
- Creio que está levando mesmo a sério a nossa aposta. Aqui está.
- Sim, o mapa do castelo confere. Disse após avaliar o desenho diante de si. Mas algo está errado em seu...relato.
- É verdade? E o que é?
- Não é assim que deveria começar e você está distorcendo tudo, apesar dos detalhes não há nada referente a parte que você cede alguns hectares de terra para os Le Monde e...
- Ficou maluca? Está para nascer o dia em que farei tal loucura! Então foi por isso que se mostrou tão interessada nesses papéis? Quer retirar de mim algo assinado e com a minha assinatura lavrar o meu destino: de destituir legalmente o que é meu por direito até diante dos olhos de meu rei, caso o seu rei venha a perder o trono e passá-lo para você e seu pai. Sua víbora! Dê-me já estes papéis!
- Ryan, está enganado. Não é nada disso! Eu só estou confusa, eu não pensei em nada disso...
- Provou que sabe ler Dafhne. Lê e entende muita coisa para uma mulher. Pois bem, peço desculpas por ter duvidado. Deveria saber que alguém como você não se contentaria aos afazeres de uma lady. Faça o seu pedido antes que eu mude de idéia.
- Mas ainda falta eu escrever e desenhar.
- Apenas desenhar. Notei que fez algumas anotações e também até alguns desenhos enquanto víamos para cá. Mesmo assim gostaria que desenhasse algo belo. Mas isso pode ficar para depois agora me diga qual é o seu pedido ou talvez eu mude de idéia. Já não estou bem certo se isso tudo não passou de um plano seu para vir comigo até aqui.
- Para que my lord? Fugir?
- Eu não duvidaria my lady. Principalmente depois dessa manhã. Fiquei sabei através de espiões que já estão a sua procura, em breve meus homens mandarão a mensagem sobre a troca. Quero os meus homens de volta Dafhne e só depois disso eu a deixarei partir.
Surpresa Gabriela apenas consentiu. Lady Dafhne devia ter fugido novamente. Só esperava ter tempo o suficiente para entender o manuscrito antes que a verdade fosse revelada. Algo não batia. O manuscrito em poder de sua família não era aquele e tão pouco o que se encontrava no museu. Ryan disse ser apenas um rascunho, um esboço. Pedro podia tê-la enviado um pouco mais no futuro quando o manuscrito já estivesse pronto...
- Se tenho direito a um pedido, gostaria de poder vir até aqui de vez em quando. Você poderá vir comigo se quiser me vigiar. Como disse gosto de desenhar e aqui deve ter paisagens lindas. Posso dar uma volta ou um mergulho nas águas da cachoeira?
- Nesse instante? Claro, seria um prazer admirá-la nadar ou nadarmos juntos. Mas não tem roupas adequadas e a mesmos que nade nua...
- Posso nadar com minhas roupas de baixo e você seria um cavalheiro se não olhasse enquanto entro na água.
- Não posso prometer algo que não pretendo cumprir my lady. Mas posso dar uma volta e contar até dez e voltar.
- Trinta.
- Vinte e nem pense em fugir.
- Está bem, vire-se então para que eu possa me despir.
- Um, dois,...
Aproveitando o momento Gabriela pegou a mensagem, enrolou-a num pedaço de couro e colocou-a dentro de seu sutiã. Despiu-se rapidamente e pulou dentro da água.
- Vinte. Viu? Sei ser um cavalheiro quando quero.
- Vou mergulhar por alguns minutos. Não se preocupe pois consigo prender minha respiração por muito tempo.
- Não duvido minha pequena sereia. Mas lembre-se que não há como fugir uma vez que tenho toda a extensão do rio diante do meu campo de visão.
- Volto à tona em alguns minutos. E mais do que depressa mergulhou e nadando o mais rápido que podia alcançou o vão após a cachoeira e entrando no interior da caverna. Quem imaginaria! A luz, mesmo tênue, clareava grande parte da gruta, escurecendo apenas na passagem que levava até o outro lado do monte, passagem esta também oculta por algumas paredes naturais de pedra e vegetação. Fora difícil para ela e Pedro ultrapassarem as paredes por serem escorregadias e de difícil acesso. Agora agradecia a Deus por isso, caso contrário a caverna já teria sido descoberta e não teria aquele esconderijo para proteger-se caso precisasse um dia.
- A pedra! Aqui está você. Oh, valha-me Deus, uma mensagem de Pedro, graças. Essa lerei na cela e agora pronto a minha já está debaixo da pedra para que Pedro possa apanhá-la no futuro. Só espero que a alteração das horas não interfira e Pedro a encontre logo, afinal era noite quando cheguei e dia quando cheguei aqui. Eu ganhei ou perdi uma quatro ou cinco horas. Tenho de voltar rápido antes que Ryan venha me procurar.
- Dafhne! Dafhne, volte ou irei buscá-la.
- Aqui estou.
- Nunca mais faça isso de novo ouviu bem?
- O quê? Eu não fiz nada. Eu disse que demoraria um pouco.
- Foi mais do que um pouco. Eu desconheço alguém que consiga prender a respiração por tanto tempo como você. Se já se banhou o suficiente vou me vira para que você saia.
- E se eu não quiser sair?
- Nesse caso eu mesmo terei de tirá-la daí.
- Você não ousaria.
- Não? E com um sorriso nos lábios Ryan livrou-se num milésimo de segundos da camisa e pulo de calças dentro d’água.
- Ryan, não! Eu estava brincando, Ryan!
- Eu já lhe disse para não brincar comigo feiticeira.
E apossando de seus lábios num gesto de posse, Ryan a beijou colando seu corpo ao dela num abraço apertado, lhe acariciando as formas perfeitas e sentindo sua virilidade pulsar de prazer. Gabriela gemeu não suportando resistir mais nem um minuto, entregou-se aquele beijo com abandono. Como não desfrutar de tal néctar dos Deus. Como se afastar de algo pelo qual ansiara por anos e anos, mesmo quando julgara ser impossível viver tais momentos com alguém que só conhecera nos livros de história. A mensagem!
- Ryan! Pelo amor de Deus pare!
- Não minha feiticeira. Dessa vez você será minha, como deveria ter sido dez anos atrás.
- Dez anos atrás? Ryan! Pare, Ryan! Eu não sei do que está falando.
- Como não?! Você tinha treze e eu vinte e três. Você não pode ter se esquecido Dafhne. No seu quarto, na ala azul, o mesmo quarto que passou a ser meu depois e no qual você passou a dormir quando seu pai se apossou do castelo quatro anos depois. Eu me controlei na época, pois a julguei jovem demais e eu não quis tirar-lhe a pureza sem as bênçãos de Deus. Achei que deveria esperar mais alguns anos até que tivesse idade para se casar, pois me senti um monstro ao desejar alguém tão jovem, por isso eu me afastei e viajei só retornando com a morte de meu pai. Só que eu não contava com a revolta de poderes e que seu pai e o meu haviam se tornado inimigos durante a minha ausência, lutando de lados opostos. Diga-me que se lembra Dafhne!
- Eu...
- Lord Ryan! Desculpe-me my lord, mas uma tropa de lord Garret Mcdonald foi vista próximo ao vale. Nós a interceptamos e recolhemos as armas e espadas. Infelizmente todos os oito homens foram mortos em combate my lord.
- Infelizmente, bom homem. Por outro lado, talvez tenha sido melhor assim. Desse modo não teremos delatores sobre o nosso esconderijo. Vista-se, lady Dafhne. Eu e Aquiles a esperaremos mais adiante. Por favor, seja rápida. Precisamos retornar ao vale.
- Também encontramos uma mulher desmaiada junto ao lago durante nossa chegada ao vale. Ela estava sem cavalos ou bagagens. Acredito que tenha sido vítima de saqueadores, my lord. Nós a levamos para casa de Frank. Marcy pediu para cuidar dela. Ela ainda não recobrou os sentidos, mas está bem.
- Ótimo, assim que ela acordar poderá nos dizer o que aconteceu. Pronta my lady? Conversaremos mais tarde, my lady. Sinto se me excedi, mais tarde conversaremos sobre o assunto.
Assumindo uma postura séria e compenetrada, Ryan seguiu conversando com o mensageiro como se nada houvesse acontecido minutos atrás. Parecia que o homem ardente e sedutor nunca houvesse existido e Gabriela sentiu um sabor amargo na boca. Ryan a beijara e quase a seduzira pensando que ela fosse realmente lady Dafhne. Era por Dafhne que ele sentia desejo ou quem sabe até amor, não ela. Isso de alguma forme lhe doía o peito e a fazia se sentir, pela primeira vez, uma traidora por estar enganando a todos com uma mentira que mesmo não tendo sido sua idéia, ela aproveitara a oportunidade que lhe fora dada de bandeja sem pensar duas vezes. Agora se encontrava naquela situação e não poderia culpar ninguém a não ser a si mesma. Em pensar que chegara a acreditar ser possível que Ryan houvesse se apaixonado de verdade por ela. Que grande ilusão! Como explicar-lhe toda a verdade se ele jamais acreditaria numa única palavra sua e de que valeria explicar, se em breve partiria deixando tudo o que vivera para trás. Estava ocupando um lugar que não era seu. Não havia registros sobre lady Dafhne e Ryan juntos nos livros, neles só lera que uma mulher de extrema coragem e destreza com a espada lutara lado a lado com ele e juntos haviam conseguido salvar seus homens da prisão e que depois de algum tempo, Ryan e seus homens retomaram o castelo. Só se essa mulher fosse lady Dafhne, afinal não sabia manejar nada além seus instrumentos químicos, quanto mais uma espada. E se essa mulher fosse mesmo Dafhne estaria ela alterando o rumo das coisas? Dafhne encontrava-se desaparecida e naquele meio tempo tudo poderia acontecer.
- Lady Dafhne, Bryan a levará até sua cela espero ter tempo de ir encontrá-la mais tarde e retomarmos a nossa conversa.
- Sim my lord, eu lhe agradeço pelo passeio.
- Você o mereceu. Venceu a aposta, não venceu? Eu sempre cumpro minhas promessas. Mais tarde combinaremos outros passeios. Tenha um bom dia.
Ao olhar em volta de sua cela, Gabriela notou que algumas mudanças haviam sido feitas em sua ausência. Vestidos de várias cores e modelos, assim como um par de sapatilhas já um pouco gastas haviam sido colocadas em sua cama. Aproximando-se para observar melhor as roupas ela reparou que também havia alguns objetos de formas estranhas junto ao seu travesseiro. Identificou-os como sendo um jogo de pinturas medieval, um batom com gosto e cheiro de frutas maduras e um frasco contendo um pouco mais da metade de um perfume até então desconhecido para ela, mas de uma fragrância inebriante e suave que Gabriela logo passou em seu pescoço.
- Deve ser uma maneira gentil que esse povo encontrou de dizer obrigado por eu ter ajudado o pequeno Derek. Ainda bem que me trouxeram esses presentes, eu já na suportava mais usar o mesmo vestido todos os dias após me lavar. Tomarei outro banho com a água limpa que colocaram na tina e vestirei, finalmente, algo mais leve e fresco. O Tempo está muito quente. Espere Ryan até ver como sua lady Dafhne pode ficar atraente em roupas limpas. O que estou pensando? Esqueça Gabriela! Isso não pode acontecer. Aliás, nada disso era para estar acontecendo...